Ti, ti, ti, ti, ti! Ou, ti-ti, ti-ti, ti-ti!
Era assim, com esse chamado ou com essa fala aprendida
nunca se soube onde nem com quem, que minha Avó “chamava” as galinhas para a
refeição: uma cuia de cabaça cheia de crueira de mandiocas, misturada com grãos
de milho.
O terreiro, de repente ficava coalhado de galinhas,
pintos e galos, enquanto os catraios (galinha d´angola) e perus se aproximavam
com o seu glu-glu ou com o conhecido “tô fraco”, “tô fraco”!
Vovó sempre gostou de criar essas aves domésticas.
Criava também cabras e bodes, além de porcos. Quando o “bacurim” nascia em
abril ou maio, ela mandava Vovô “castrar” – para ela, “capar”, o que dá no
mesmo – e começa a cevar para matar no dia 24 de dezembro, véspera do Natal.
Era a festa do Menino Jesus.
- Meu fii, num se esqueça de botar a lavage do bacurim.
Quandi eu mandar matar, a passarinha e os rins são seus. É a sua paga!
Mas, voltando às galinhas, Vovó tinha enorme carinho
pelas bichinhas. Mas, por vezes também ficava zangada com as aves. Era quando
alguma andava dentro de casa, “percurando nim prumode botar ovo”, e cagava na cozinha
ou na sala. E, ela garantia que conhecia cada uma das aves e até “botava nomes”
de gente nelas.
Quando ela não gostava de alguma mulher e zangava por
alguma contrariedade, “batizava” a galinha com o nome dessa que lhe aborrecia.
Certa vez, uma galinha subiu no fogão a lenha que
ficava próximo de uma janela. Quando minha Avó se aproximou, a galinha fugiu
pela janela, derrubando o frasco de vidro onde ela guardava o pó de café,
trabalhosamente torrado e pilado em casa. Ela ficou zangada por demais e vociferou:
- Sai daqui, sua fela da puta! Maria do Rosário!
Acontece que, “Maria do Rosário”, era a mãe do meu Avô.
Nem queiram imaginar o quebra-pau que aconteceu.
Nascer, crescer e viver a vida inteira no sertão, é uma
bênção. É o contrário do que pensam muitos, quando tentam fazer alguma
confrontação com a vida, a forma de viver e de morrer na cidade, na metrópole.
Nunca houve discussão aprofundada sobre determinadas
realidades e fatos do sertão e da cidade. Tomar um banho numa cachoeira de um
penhasco ou numa vazante de um açude é algo muito diferente de tomar um banho
de chuveiro – ainda que seja uma reparadora ducha.
A alimentação do sertão, feita no sertão com produtos,
panelas, temperos e modos de fazer do sertão, não tem paralelo de comparação
com a comida da melhor churrascaria da cidade.
Mas, fazer comida gostosa no sertão também causa
problemas. Procurar lenha, por exemplo, que esteja (seca) em condição de ser queimada
sem causar excesso de fumaça ou deixar as panelas imprestáveis.
E, acredite, sem possuir a disponibilidade alguns dos
produtos químicos utilizados na cidade chamada grande, a dona de casa do sertão
sofre um bocado para “arear” as panelas, sujas demasiadamente de “tirna”. Tirna é a fuligem preta que fica no exterior da panela e dá
muita mão de obra para quem lava. Só tem uma solução: arear com bastante sabão,
bucha de pepino e muitas areia, esfregando até alcançar o objetivo.
Depois, é só colocar no sol e esperar o reflexo do
brilho incandescente da limpeza.
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