Por Luciana Lima - iG
Brasília
As argumentações inusitadas constam nos 11 pedidos de impeachment
escondidos pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, atitude inédita de acordo
com área técnica da Câmara.
Entre os 16 pedidos de impeachment da
presidente Dilma Rousseff apresentados à Câmara dos Deputados, cinco foram
arquivados e 11 ainda aguardam uma deliberação do presidente da Câmara, Eduardo
Cunha (PMDB-RJ).
Cunha tem escondido as argumentações
ao impedir que a Mesa Diretora da Câmara divulgue o conteúdo dos pedidos.
A rigor, de acordo com técnicos da
Câmara ouvidos pelo iG, tratam-se de documentos públicos e que a decisão
de Cunha é inédita no Parlamento.
Entre esses pedidos, há uma série de
alegações inusitadas com o objetivo de apontar que Dilma cometeu “crime de
responsabilidade no exercício da Presidência”, único quesito expresso na
Constituição Federal como capaz de provocar a saída de um presidente do cargo.
Uma das alegações mais
inusitadas é a que acusa Dilma Rousseff de ter cometido crime de “tráfico
internacional de pessoas” ao trazer para o Brasil os médicos cubanos que atuam
no programa Mais Médicos, marca de seu primeiro mandato.
Este argumento encontra-se no pedido
apresentado por Paulo Rogério Caciji, que elenca uma série de motivos pelos
quais ele acredita que a presidente deva perder o mandato. Para Caciji, a vinda
dos cubanos para o Brasil caracteriza “tráfico internacional de pessoas”.
“O ser humano não pode ser comprado
ou alugado como se fosse mercadoria. A justificativa de que os médicos cubanos
aceitaram de livre e espontânea vontade é a mesma que leva milhares de jovens
no Brasil a aceitar a prostituição como forma de vida: - Sobrevivência”,
alega o texto do pedido de impeachment.
“A contratação de médicos cubanos,
com o pagamento feito ao Governo de Cuba, é um atentado a dignidade do Brasil”,
argumentou Caciji, no pedido enviado à Câmara.
“Se o pagamento fosse feito
diretamente aos médicos cubanos, nas mesmas condições que os médicos nacionais,
depois daqueles terem sido avaliados pelo CFM [Conselho Federal de Medicina] e
os diplomas revalidados no Brasil seria um exercício normal da atividade
presidencial. Fora disso não existe uma justificativa legal para este ato”,
defende.
Bolivarianismo - A “ameaça bolivariana” presente nas manifestações anti-Dilma se
manifestaram em pedidos de impeachment também em outra argumentação
curiosa, apresentada por Cesar Augusto Cavazzola Junior. Ele acusa a presidente
de crime de responsabilidade por “subordinar a Nação, a República Federativa do
Brasil, à entidade denominada Foro de São Paulo e aos governos estrangeiros”.
O Foro de São Paulo é uma organização
fundada em 1990, pelo PT e pelo partido Comunista Cubano, por iniciativa do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É composta por partidos e movimentos
de esquerda da América Latina e Caribe. Trata-se de um fórum de debates que
discute as alternativas à visão neoliberal da economia e da política.
Mais acusações - Caciji reclama da “defesa” de Dilma sobre “seus companheiros do PT”
investigados na Lava Jato e que as administrações do PT e do PMDB nos Estados e
municípios receberam verbas do governo mediante o alinhamento político.
Segundo Caciji, até o vice-presidente
Michel Temer teria deixado claro que “o Executivo dificultaria a liberação de
verbas para os que se rebelassem e votassem contra ou dificultassem as ações da
Presidente da República”.
Outra reclamação é de que Dilma teria
escondido no ano das eleições “os problemas da crise que o Brasil já
enfrentava”, além de ter esperado, segundo o documento, a vitória nas eleições
elevar os preços de energia elétrica, combustíveis e outros.
Ao pedir o impeachment da presidente,
Caciji ainda argumenta que não lhe cabe apresentar provas de suas acusações.
“Todos os crimes aqui descritos, não precisam ser documentados por ser de
notório conhecimento de Vossas Senhorias”, diz o texto que solicita ao
presidente da Câmara a “punição” de Dilma com o objetivo, de “creditar as
Instituições da República a respeitabilidade que o nosso povo pede”, conclui.
Operação Lava Jato - A maior parte dos pedidos alega que Dilma teria cometido crime de
responsabilidade ao permitir corrupção na Petrobras.
Este argumento está presente na
solicitação apresentada pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), único
parlamentar a pedir a saída de Dilma por meio de impeachment até agora.
Bolsonaro argumenta que Dilma se beneficiou do esquema de corrupção instaurado
na Petrobras, investigado pela Operação Lava Jato, que serviu para alimentar
sua campanha.
O mesmo argumento está presente nos
pedidos apresentados pelos advogados Ulysses Lacerda de Moraes, Marcelo Pereira
Lino, Pedro Geraldo Cancian Lagomarcino Gomes.
Fazem parte também das argumentações
apresentadas por Luiz Adrian de Moraes Paz e Caio Bellote Delgado Marczuk e
Carla Zambelli Salgado, que se intitula “fundadora e Porta Voz” do movimento
Nas Ruas Contra Corrupção. No pedido feito por Carla, ela pede a
necessidade de “afastamento temporal” da presidente.
Trâmite para o pedido de impeachment
- Pela Constituição, qualquer cidadão
pode apresentar um pedido de impeachment da presidente. Para isso, deve apontar
crime de responsabilidade no exercício da função.
Cabe ao presidente da Câmara decidir
se o pedido será arquivado o colocado em discussão com os demais parlamentares.
Antes de ser votado em Plenário, o
pedido ainda tem de passar por uma comissão especial formada especificamente
para este fim com representação proporcional de todos os partidos.
A aprovação só se dará se o pedido
receber apoio de 342 dos 513 deputados.
Só depois disto, o processo segue
para o Senado, onde precisará de apoio de 54 dos 81 senadores. No Senado, o
pedido precisa ser apreciado no prazo 180 dias, período em que o presidente
fica afastado do cargo.
Veja quem apresentou e o que argumentam os pedidos de impeachment contra
a presidente Dilma Rousseff:
Deputado federal Jair Bolsonaro
(PP-RJ) – argumenta que a presidente cometeu crimes de responsabilidade diante
do conjunto de fatos relacionados à incompetente gestão da Presidente da
República, que tem proporcionado a destruição do Estado Brasileiro.
Marcelo Pereira Lino - Oferece
denúncia em face da Presidente da República, Dilma Rousseff, por entender
configurado crime de responsabilidade, em fatos apurados pela Polícia Federal
na Operação Lava Jato, envolvendo a Petrobras.
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