segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Acendedor de Lampiões



Cada gesto é uma atitude poética – dependendo do estado de espírito de quem interpreta. Um simples vestido longo de cor amena de uma mulher, pode conduzir quem vê, a uma poética noite de valsas. Valsas vienenses, de passos largos, medidos, suaves, cujo desfile no salão conduz ao Danúbio Azul. Da mesma forma, o isolamento para fumar um cigarro, distante de lugar proibido, pode levar à apreciação das estrelas numa noite escura, enquanto a amada foi retocar a maquiagem.

Enfim, tudo pode parecer e ser poético. Depende de mim, depende de ti, depende de nós. Nós é que somos, ao mesmo tempo, poéticos, poetas e poesia.

Assim, voltando ao passado, nem precisa uma noite fria para nos reconduzir à figura poética e laboral do Acendedor de Lampiões. Antes da tecnologia, antes das grandes geradoras de energia – que, sem nenhuma poesia nos roubaram os leitos dos nossos rios perenes – o fim da claridade do dia nos apresentava, aqui e alhures, o Acendedor de Lampiões.

Acender lampiões foi “profissão”. Profissão digna e necessária – embora, como tantas outras, sempre mal assalariada. Jorge Lima, poeta alagoano, em momento raro de introversão do seu ser, produziu a poesia que retrata aquela esquecida “profissão”.

O Acendedor de Lampiões


Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!


Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.


Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –
Ele que doira a noite e ilumina a
cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.


Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor,
felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!




Não estão muito distantes de nós as noites poéticas. Noites dos lampiões, das serenatas tocadas ante o balcão da amada, como numa cena teatral de Shakespeare, ao inebriante e também poético som do violino e suas cordas mágicas.

Ahhh!.... as nossas músicas, que emolduravam nossas paixões na juventude!

Nossas tertúlias! Lembram?

Nosso primeiro beijo na boca da amada! Dá para esquecer?

E nosso primeiro buquê de rosas, ou a simples e bela rosa vermelha em troca de um beijo, cálido, puro e cheio de convites para o futuro?

Agora, entremos nas nossas casas. Lembremos o nosso passado sem “poesia” alguma.  Lembremos o “candeeiro” que precisava ser “bombeado” para iluminar nossas salas e, às vezes, a nossa casa inteira e até as nossas vidas.

Depois, foram surgindo outros tipos de fontes de energia, como o gás adaptado num pequeno botijão. A vela, a lamparina e, nas ruas, até mesmo os fachos que queimavam algum tipo de óleo.

Ainda no recôndito de nossas casas, sem a compreensão e meiguice da poesia, encontramos a velha e sempre útil lamparina. Movida a querosene e à necessidade. Inexplicavelmente, acabava o querosene, mas o pavio, sempre de algodão, não acabava nunca. E, tanto quanto os celulares de hoje, a lamparina era modernamente, portátil.

A foto abaixo mostra a realidade de algumas famílias que nunca usufruíram do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do Petrolão, do Mensalão, tampouco do BNDES.

A sagrada “hora do jantar” – café preto, sem pão, nem queijo nem manteiga e muito menos presunto ou mortadela. Provavelmente havia um ovo frito n´água para acalentar o sono e ludibriar a fome e fazer de nós seres poéticos. Poetas com poesias!

A vida é uma bela poesia, quando a vivemos com dignidade, cidadania e obediência divina. Fora disso, é modismo intempestivo que o vento carrega para algum lugar ainda desconhecido, e literalmente sem rimas.


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