Cada
gesto é uma atitude poética – dependendo do estado de espírito de quem
interpreta. Um simples vestido longo de cor amena de uma mulher, pode conduzir
quem vê, a uma poética noite de valsas. Valsas vienenses, de passos largos,
medidos, suaves, cujo desfile no salão conduz ao Danúbio Azul. Da mesma forma,
o isolamento para fumar um cigarro, distante de lugar proibido, pode levar à
apreciação das estrelas numa noite escura, enquanto a amada foi retocar a
maquiagem.
Enfim,
tudo pode parecer e ser poético. Depende de mim, depende de ti, depende de nós.
Nós é que somos, ao mesmo tempo, poéticos, poetas e poesia.
Assim,
voltando ao passado, nem precisa uma noite fria para nos reconduzir à figura
poética e laboral do Acendedor de Lampiões. Antes da tecnologia, antes das
grandes geradoras de energia – que, sem nenhuma poesia nos roubaram os leitos
dos nossos rios perenes – o fim da claridade do dia nos apresentava, aqui e
alhures, o Acendedor de Lampiões.
Acender
lampiões foi “profissão”. Profissão digna e necessária – embora, como tantas
outras, sempre mal assalariada. Jorge Lima, poeta alagoano, em momento raro de
introversão do seu ser, produziu a poesia que retrata aquela esquecida
“profissão”.
O Acendedor de Lampiões
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
Não estão muito distantes de nós as noites poéticas. Noites dos
lampiões, das serenatas tocadas ante o balcão da amada, como numa cena teatral
de Shakespeare, ao inebriante e também poético som do violino e suas cordas
mágicas.
Ahhh!.... as nossas músicas, que emolduravam nossas paixões na
juventude!
Nossas tertúlias! Lembram?
Nosso primeiro beijo na boca da amada! Dá para esquecer?
E nosso primeiro buquê de rosas, ou a simples e bela rosa vermelha em
troca de um beijo, cálido, puro e cheio de convites para o futuro?
Agora, entremos nas nossas casas. Lembremos o nosso
passado sem “poesia” alguma. Lembremos o
“candeeiro” que precisava ser “bombeado” para iluminar nossas salas e, às
vezes, a nossa casa inteira e até as nossas vidas.
Depois, foram surgindo outros tipos de fontes de
energia, como o gás adaptado num pequeno botijão. A vela, a lamparina e, nas
ruas, até mesmo os fachos que queimavam algum tipo de óleo.
Ainda no recôndito de nossas casas, sem a
compreensão e meiguice da poesia, encontramos a velha e sempre útil lamparina.
Movida a querosene e à necessidade. Inexplicavelmente, acabava o querosene, mas
o pavio, sempre de algodão, não acabava nunca. E, tanto quanto os celulares de
hoje, a lamparina era modernamente, portátil.
A foto abaixo mostra a realidade de algumas
famílias que nunca usufruíram do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do
Petrolão, do Mensalão, tampouco do BNDES.
A sagrada “hora do jantar” – café preto, sem pão,
nem queijo nem manteiga e muito menos presunto ou mortadela. Provavelmente
havia um ovo frito n´água para acalentar o sono e ludibriar a fome e fazer de
nós seres poéticos. Poetas com poesias!
A vida é uma bela poesia, quando a vivemos com
dignidade, cidadania e obediência divina. Fora disso, é modismo intempestivo
que o vento carrega para algum lugar ainda desconhecido, e literalmente sem
rimas.
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