Sei que só há uma liberdade: a do pensamento. (Antoine de Saint-Exupèry)
Faz muito tempo que, depois de presenciarmos vários
desenhos do nascer do sol de matizes diferentes e, pelo nosso status quo assistirmos igual número de
por do sol, na sua grande maioria, tingido de um vermelho alaranjado, que
convivemos com pessoas que vivem o sonho eterno da viver a liberdade.
Essas pessoas se envolvem tanto com a conquista, que
blindam a sensibilidade a ponto de não perceberem que, incontáveis vezes, a
verdadeira liberdade passou por elas. A liberdade, dizia minha Avó na sua
contextura angelical de analfabeta, “pode estar até no coaxar do sapo”. Não a
nossa liberdade. Mas, a do sapo, claro.
Ou será que liberdade só tem valor e sentido, quando é
a nossa?
Muitas vezes, nem percebemos, nos libertamos no achar
da liberdade dos outros. E, diziam Vovó, é assim que ela passa por nós, vezes
seguidas, e não percebemos – porque somos egoístas e a imaginamos apenas para e
por nós.
Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar.
(Helen Keller)
“Era
uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era
galinha. Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer). Que tristeza quando
se via refletida nos espelhos das poças d’água tão diferente! O bico era grande
demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam. Seus
olhos tinham um ar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao
sabor do amor do galo.
Era muito grande em relação às outras, era
atlética. Com certeza sofria de alguma doença. E ela queria uma coisa só: ser
uma galinha comum, como todas as outras.
Fazia um esforço enorme para isso. Treinava ciscar
com bamboleio próprio. Andava meio agachada, para não se destacar pela altura.
Tomava lições de cacarejo.
O que mais queria: que seu cocô tivesse o mesmo
cheiro familiar e acolhedor do cocô das galinhas. O seu era diferente,
inconfundível. Todos sabiam onde ela tinha estado e riam.
Aconteceu que, um dia, um alpinista que se dirigia
para o cume das montanhas passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostam de
ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto. Sobem a pés e mãos,
até as alturas onde elas vivem e voam. E ficam lá, olhando para baixo,
imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.
O alpinista viu a águia no galinheiro e se
assustou.
- O que você, águia, está fazendo no meio das
galinhas? Ele perguntou.
Ela pensou que estava sendo caçoada e ficou brava.
- Não me goza. Águia é a vovozinha. Sou galinha de
corpo e alma, embora não pareça.
- Galinha coisa nenhuma, replicou o alpinista. Você
tem bico de águia, olhar de águia, rabo de águia, cocô de águia. É ÁGUIA.
Deveria estar voando... E apontou para minúsculos pontos no céu, muito longe,
águias que voam perto dos picos das montanhas.
- Deus me livre! Tenho vertigem das alturas. Me dá
tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro, ela respondeu.
O alpinista percebeu que a discussão não iria a
lugar nenhum. Suspeitou que a águia até gostava de ser galinha. Coisa que
acontece frequentemente. Voar é excitante, mas dá calafrios. O galinheiro pode
ser chato, mas é tranquilo. A segurança atrai mais que a liberdade.
Assim, fim de papo. Agarrou a águia e enfiou dentro
de um saco. E continuou sua marcha para o alto da montanha.
Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o
saco e sacudiu a águia no vazio. Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se
furiosamente procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe
sobravam as asas.
E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo de
seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou,
se apossou das asas e, de repente, ela voou.
“Lá de cima olhou o vale onde vivera. Visto das
alturas ele era muito mais bonito. Que pena que há tantos animais que só podem
ver os limites do galinheiro!”
Liberdade é classificada pela filosofia,
como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade. A
liberdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável se realmente os
indivíduos tem a liberdade que dizem ter, se com as mídias ela realmente
existe, ou não.
Que mãos teriam aberto aquele pedaço de janela? As mãos
da liberdade, claro. E, como dizia minha Avó, as pequenas e belas borboletas
conquistaram a liberdade por mãos alheias. A liberdade, assim, é algo que está escondido
em nós. Todos nascem com esse DNA – temos asas, sim, ainda que apenas no
pensamento.
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