segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A feira e a bodega

 

Dia desses, na ânsia de fugir um pouco do dia-a-dia estafante, peguei meu matulão, botei uma garrafinha d´água (antigamente, na minha roça, era uma cabaça), uns punhados de farinha seca e um naco de rapadura melada e me mandei para Barreirinhas, distante algumas horas de São Luís. É algo maravilhoso. Bonito de ver. Mas, carece de infraestrutura para pretender servir ao Turismo. O que existe de belo, é apenas o trabalho da Natureza. O homem só tem usufruído e ainda não teve ideias para por a mão e fazer algo melhor.

Como a folhinha marcava um feriadão, prossegui viagem, e fui até Parnaíba, onde a mão Divina também é pródiga, e pinta tudo com todas as cores do arco-íris. De Parnaíba até Luiz Correia é um piscar de olhos. E, melhor, se você sair de Parnaíba e abrir os olhos só quando estiver em Luiz Correia, vai ver uma das coisas mais lindas que existem no mundo. Mais um trabalho de Deus, aquele que tudo pode, tudo vê, e tudo pinta.

E, sem pretender discutir preferência ou escolha de ninguém, ao retornar para casa, vinha tentando encontrar uma resposta para a pergunta que fiz a mim mesmo: como algum brasileiro pode preferir atravessar o Atlântico para ir a Miami, Califórnia ou Nova Iorque e deixar de lado e fora das vistas, maravilhas como as que temos no Brasil?

É claro que, Barreirinhas, Luiz Correia (com acentuado destaque para a Lagoa do Portinho), Foz do Iguaçu, Fernando de Noronha e tantas outras maravilhas brasileiras, são prêmios de Deus e da Natureza para nós. Provavelmente, se o “homem brasileiro” puser as mãos para tentar fazer alguma coisa nesses lugares, vai estragar.

É constante escutar alguém falar, no Nordeste: “esse ou aquele saiu do sertão, mas o sertão não saiu dele”. Isso quando quem saiu do sertão continua praticando atos que só se vê praticados no sertão. Fazer uma necessidade fisiológica fora do lugar adequado, por exemplo.

Mas, deixando os atos de lado, conviver com algo que não é estranho e que serve para matar a saudade das “coisas do sertão”, rejuvenesce, revigora, fortalece o elo entre você, o passado e o lugar onde você nasceu. Se tiver sido num sertão qualquer, claro.

Nos domingos e feriados, revisitar a “Feira dos Paraíbas” que funciona há décadas no Pavilhão de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, é algo que qualquer nordestino ou nortista faz com esmerado prazer.

Passar a semana comendo comida rápida, à base de macarrão e sanduíches por conta da pressa que o trabalho impõe e, aos domingos ou feriados ir comer uma buchada de bode, um sarapatel, uma espiga de milho verde assada ou cozida, tomar café com tapioca ou cuscuz de milho e comer queijo de coalho, é algo impagável que acaba revitalizando a saudade dos lugares onde muitos nasceram.

Escutar cantorias, apresentações de cordel e os inconfundíveis toques de sanfona e triângulo, além de saborear cambicas de murici, açaí com camarão salgado, comer camarão pitu para tirar o gosto de uma lapada de cachaça, convenhamos, é algo sensacional.

E, sabemos, muitas dessas coisas você pode fazer em casa. Difícil é morar em apartamento e assar queijo de coalho na brasa – a churrasqueira elétrica, segundo Dalinha Catunda, não dá o mesmo gosto e não existe o prazer sertanejo de lavar as panelas para retirar a “tirna” na preparação de outras comidas.



Com oferta grande de comidas típicas das regiões Norte e Nordeste, a Feira dos Paraíbas é um dos maiores pontos de visitação do Rio de Janeiro. Entretanto, não conseguiu, ainda, despertar o interesse dos turistas internacionais – e, provavelmente por conta disso, só merece a atenção do Governo do Rio para a manutenção do que funciona (o que já significa muita coisa).

Quem atrai mesmo a atenção do turista internacional é a Feira de Caruaru, seguramente, a mais frequentada do Nordeste. “Ali hai de tudo”, assegura a letra da música eternizada por Luiz Gonzaga. Veja a letra e ouça a música:

Feira de Caruaru              


A feira de Caruaru
Faz gosto da gente ver
De tudo que hai no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru
Tem massa de mandioca
Batata assada
Tem ovo crú
Banana, laranja e manga
Batata doce, queijo e cajú
Cenoura, jabuticaba
Guiné, galinha
Pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
Se duvidar inté cururu (2x)
Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, greia, tem boi tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Tem tudo e chifre
De boi zebu
Caneco, arcoviteiro
Peneira, boi
Mel de uruçu
Tem carça de arvorada
Qué pra matuto
Não andar nú (2x)
Na feira de Caruaru
Tem coisa pra gente ver
De tudo que hai no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru
Tem rede, tem baleeira
Mó de menino
Caçar nambú
Maxixe, cebola verde
Tomate, coentro
Côco e xuxu
Armoço feito na corda
Pirão mexido
Que nem angú
Mobia de tamborete
Feita de tronco de mulungu (2x)
Tem louça
tem ferro véio
Sorvete de raspa
De pai jaú
Gelado, caldo de cana
Fruta de parma
E mandacarú
Boneco de Vitalino
Que são conhecido
Inté no Sul
De tudo que hai no mundo
Tem na feira de Caruaru
A feira de Caruaru
Faz gosto da gente ver
De tudo que hai no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru.........



Estranhamente, como visitantes, poucos pernambucanos frequentam a Feira de Caruaru. O contingente que superlota o lugar, é proveniente de outras cidades das duas regiões (mas já se vê caras estrangeiras em boa quantidade), procurando comprar produtos para revenda nas suas cidades. Artesanato e vestuário encabeçam a lista das preferências.

Comidas típicas também viraram atração. E, a partir daí, a criatividade nordestina sobe ao palco e apresenta um leque considerável de pizzas, lasanhas e outras comidas de origem italiana, muito consumidas nas regiões sul e sudeste. Lasanha de tilápia, pizza de caranguejo, cozinha de carne de bode e até paeja baiana. Procure e não terá dificuldade para encontrar.

Da mesma forma que na Feira dos Paraíbas do Rio de Janeiro, em Caruaru a cultura popular também é atração forte. Ali, além de inúmeras peças de artesanato regional, um variado leque de trabalhos musicais e uma acentuada gama de publicações literárias pode ser encontrada.

Aos poucos vai sumindo dos hábitos nordestinos a cultura aportuguesada do comércio informal. A cada dia “some” dos bairros de muitas cidades nordestinas, a bodega, tipo de comércio implantado no Brasil por espanhóis e portugueses que acabou enveredando e se adaptando aos nossos costumes.

Era comum chegar numa bodega em Fortaleza ou em João Pessoa ou ainda em Natal e encontrar do lado de dentro do balcão, o “bodegueiro” pronto a atender qualquer tipo de pedido de venda. Lápis atravancado atrás da orelha, pronto a somar os valores das compras no papel de embrulho desarrumado sobre o balcão.  Máquina calculadora é “aplicativo” muito moderno.

Café cru em grão, feijão, arroz, pão, farinha, sabão, creolina, querosene, manteiga, banha de porco – tudo era vendido nas bodegas, antes do surgimento dos sacolões, dos comerciais e dos supermercados.

Desde a manteiga real ou banha de porco e gordura de coco vendidas em pequenas porções, ao pão da manhã e da tarde e até peixe ou carne salgada arrumada dentro de uma gamela, tudo era negociado na bodega. “Retalhos” de temperos caseiros como óleo comestível, ou Melhoral e pílula de vida do Dr. Ross, e até óleo de rícino para purgantes infantis. Tudo podia ser encontrado nessas bodegas. E, nunca houve uma que não vendesse “fiado”. Ou vendia fiado, ou fechava.

Da mesma forma, a bodega também sempre foi onde “pinguços” bebiam a tradicional “bicada” antes do banho. Cigarros em “retalhos” (“Seu Manel, me venda meia carteira de cigarros”!), queijo de coalho e, em alguns pontos, aos sábados e domingos também se vendia “carne fresca” de boi ou de bode.


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