Como se fora parte de um dos atos de uma peça teatral,
o cenário da casa, no distante lugarejo de difícil acesso, era, aparentemente,
repetitivo – como requer a encenação da vida em qualquer palco.
Ambrósio Gomes, parte final da distante linhagem
familiar dos primeiros colonizadores de Ouro Fino, sem ter conhecido os
mentirosos avanços da tecnologia televisiva, depois de um longo dia de trabalho
na roça, descansava e ao mesmo tempo se divertia contando estórias vividas e
deduções de quem tem a escolaridade da experiência – estórias pra boy dormir.
Ao mesmo tempo em que a conhecida e pequena plateia
infantil arrumava os assentos (tamboretes, tocos de madeira, tijolos e até
cadeiras estilo macarrão), Ambrósio Gomes, apelidado carinhosamente de “Vovô
Memória” ticava o fumo para abastecer o cachimbo, como se aquilo fosse o “chip”
necessário para tudo começar, a partir da conexão com as lembranças vividas. E
era.
Tudo pronto. Tudo montado. Vai começar mais uma sessão
das “... estórias pra boy dormir”!
Abrem-se as cortinas, e, com a palavra, Vovô Memória:
“... era uma vez um lugar que quase todos resolveram
chamar de País. Um país onde Alice gostava de ir e de se divertir.
- Vô, quem é Alice? Interrompe, perguntando, um boy.
- Era uma menina que sonhava com tudo que era bom na
vida, mas só se preocupava mesmo em dormir. E, gostava tanto de ir para aquele
lugar que, quando não estava presente entre os amigos, todos diziam que ela
viajara para “o País das maravilhas”!
Pois (continua a estória Vovô Memória), certo dia,
cansados de trabalhar em vão, vários operários resolveram mergulhar para pescar
e aproveitar para conhecer mais alguma coisa do fundo do mar. Mergulhavam tanto
durante o dia, quanto durante a noite. E, certa noite, quatro trabalhadores não
retornaram às suas casas. Foi aquele alvoroço.
Vovô Memória olha de soslaio, e percebe que Maurinho
bulia mais com o telefone celular, deixando de lado a estória, tão importante e
que certamente vai algum dia fazer parte da História daquele lugar.
- Maurinho, menino malino, não quer escutar a estória? Demonstra
irritação Vovô Memória, enquanto dá mais uma forte cachimbada.
Maurinho não tinha nada diferente dos meninos de hoje
que, quando a mesa está posta para as refeições, em vez de se juntar à família
e tirar proveito da presença dela, está sempre a olhar a tela do telefone
celular – e isso virou mania nacional, por que os pais já não têm o domínio e
ascendência sobre os filhos.
Continua Vovô Memória:
“... depois de alguns dias os familiares começaram a
anunciar a ausência dos parentes que haviam saído para pescar e mergulhar.
Passaram dias, passaram meses e, assim sem mais nem menos, num certo dia eis
que eles reaparecem. Sorrindo, sem caberem em si de tanta felicidade.
- Descobrimos petróleo! Anunciou um dos homens que
haviam sumido.
- Descobrimos petróleo, descobrimos petróleo no
pré-sal!
Se Maurinho não dava muita atenção às estórias,
Alicinha, cochilando e quase dormindo, perguntou:
- Vô, o que é o pré-sal?
- Ora, minha netinha, o pré-sal é uma camada das
profundezas geológicas onde está guardada a nossa melhor reserva petrolífera. Será
muito bem explorada e todos os lucros serão destinados ao financiamento da
educação brasileira.
A essa altura, noite já pesada, Vovô Memória tentava
colocar mais fumo no cachimbo para concluir mais uma estória. Foi quando
percebeu que Maurinho, o boy, estava dormindo o sono dos justos.