Sair da vitrine para escapar de um desastre
eleitoral. Esta é a nova tática adotada pelo PT para as eleições municipais
deste ano, em outubro. Ao contrário da tese adotada desde a década de 1980,
quando foi fundado e fazia questão de candidaturas próprias para todos os
cargos majoritários, agora o PT aceita e até prefere sair da linha de frente
das campanhas. O objetivo é mitigar a rejeição que a sigla experimenta desde a
reeleição da presidente Dilma Rousseff e o aprofundamento das operações policiais que prenderam seus três últimos tesoureiros.
O PT abriu mão de lançar candidaturas em capitais
importantes. No Rio de Janeiro, com 4,6 milhões de eleitores, cidade com o
segundo maior colégio eleitoral, a legenda já decidiu apoiar a deputada do
PCdoB Jandira Feghalli. O pré-lançamento da campanha contou até com a presença
do ex-presidente Lula da Silva (foto). A tese de candidaturas exclusivas foi
substituída pela tática da barriga de aluguel, com o partido disputando o poder
escondido em alianças com outras legendas.
Em Salvador, com 1,8 milhões de votantes, o
governador petista Rui Costa insiste para que a senadora Lídice da Mata (PSB)
aceite concorrer. A alternativa do PT à parlamentar é a deputada Alice
Portugal, também do PCdoB. O PT baiano aceita até ficar de fora da chapa e
lançar apenas vereadores.
Em Belo Horizonte o dilema dos petistas se repete.
Lá o PT tem dois pré-candidatos – o deputado federal Reginaldo Lopes e o deputado
estadual Rogério Corrêa – mas os dirigentes torcem para que o governador
Fernando Pimentel, fundador da legenda, feche um acordo e apoie nome de outra
legenda.
Fator São Paulo - O PT prioriza reeleger Fernando Haddad em São Paulo. A direção do
partido acredita que, se vencer novamente na maior cidade da América Latina,
reduto eleitoral com 8,4 milhões de votos, a vitória vale por milhares de
municípios. Eles têm razão. Mas o prefeito paulistano patina em percentuais
inferiores a 10% e corre o risco de sequer ir para o segundo turno. No estado
berço do PT o partido amarga, desde 2012, a desfiliação de 30 prefeitos.
Das 26 capitais, na melhor das hipóteses o PT deve
lançar candidaturas em 17 metrópoles. Mas as boas perspectivas de vitória só
existem em Rio Branco (AC), com a reeleição de Marcus Alexandre; em Recife, com
o ex-deputado federal João Paulo, que já administrou a cidade duas vezes; e em
Fortaleza, onde a deputada Luizianne Lins tem viabilidade eleitoral.
Luizianne é uma exceção entre os deputados. A
bancada, que antes utilizava as eleições municipais das capitais para se
fortalecer eleitoralmente, neste ano evita concorrer porque está contaminada
pela crise político-policial que o partido enfrenta em nível nacional. “As
eleições deste ano serão um desastre para o PT. O partido não será destruído,
mas sairá gravemente danificado”, diz o cientista político David Fleischer,
emérito da UnB.
Além de Fortaleza, Rio Branco e Recife, o PT
considera que tem candidaturas competitivas em Natal, Goiânia, Manaus e Porto
Alegre. Em cidades grandes do interior a sigla também terá dificuldades. A
opinião pública nos municípios mais populosos é influenciada pelas crises
nacionais, como a atual, com elevado índice de desemprego e constantes
denúncias de corrupção – nesse caso específico, preocupam os petistas as
delações de réus presos nas operações Lava Jato, Acrônimo e Zelotes que relatam pagamento de propina à legenda por empreiteiras que prestam
serviço à Petrobras.
Desde 1988, o PT aumenta significativamente o
número de prefeitos e vereadores a cada eleição municipal. Em 1992, tinha 54
prefeitos. Na eleição seguinte, mais do que dobrou este número. Em 2000, o
partido foi escolhido para administrar 186 municípios. Quatro anos depois, no
segundo ano do governo Lula, pulou para 409. No pleito de 2008, foram 558
prefeitos eleitos. Em 2012, bateu o recorde e chegou ao poder em 635 cidades.
Mensalão e Petrolão - O desgaste dos petistas junto à opinião pública começou em 2005, com o
julgamento do mensalão, que condenou e prendeu próceres da sigla como o ex-ministro José
Dirceu e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha. Os primeiros sinais da
onda anti-PT foram percebidos logo após as eleições municipais de 2012. Neste pleito,
o partido ainda foi escolhido para administrar um bom número de municípios.
Com a força da terceira eleição para a Presidência
da República, ganhou um lote de adesistas e contabilizou 635 prefeitos. Um ano
depois, uma onda de desfiliações derrubou as estatísticas, reduzindo a
administração do partido a 530 cidades.
Em março deste ano, quando o ex-presidente Lula foi
levado coercitivamente para depor na Polícia Federal como suspeito de lavagem
de dinheiro e enriquecimento ilícito, aumentou a debandada de prefeitos. “A
tendência é a perder um bom número de prefeitos e vereadores em razão da crise
do impeachment e da campanha pela criminalização da política em geral e do
partido em particular”, admite o senador Paulo Rocha (PA), fundador da legenda.
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