Por mais de dez anos seguidos, todos os fins de tarde
estavam reunidos na banca de jornais e revistas do João Marreco: este escriba;
Medeiros, o “Rei das fotos” e recortes diversos sobre São Luís; Robertinho,
ex-Difusora; Jorginho, da banca do lado, e, Rei dos Homens. Eu e Robertinho
esperávamos a chegada do Jornal dos Sports, pois não íamos para casa sem a
edição diária do jornal carioca. Vez por outra passava José Salim com o
inconfundível vozeirão, dizendo: “Aí tem. E como tem”!
Conversas contando causos fluíam, enquanto esperávamos
o relógio da Praça João Lisboa marcar 18 horas – e, pelo menos isso, a gente
tinha certeza que era mais fácil “Rei dos Homens” ficar rico pegando “o do
caldo”, do que aquele relógio atingir o
horário esperado.
E era João Mendes quem temperava a espera pelo jornal,
contando os casos acontecidos na sua imaginária Fazenda Santa Maria, onde tinha
o hábito de reunir amigos para uma festa de celebração, que acontecia todos os
anos, no dia 30 de fevereiro.
Nomeava um por um os bichos da “fazenda”, parecendo
copiar a fábula de George Orwell (“A revolução dos bichos”). João Marreco tinha
o prazer de receber convidados especiais para a festa, e, entre esses, sempre
se fazia presente Epitácio Afonso Cafeteira – que segundo o narrador, uma vez
chegou a demitir o motorista do Palácio do Governo, que teve a ousadia de
“perder o rumo” quando se dirigia para a Fazenda Santa Maria e o fez perder a festança.
Claro que o “Rei da Fazenda” era um galo. Galo preto –
que para João Marreco era o símbolo do machismo e da representatividade da procriação. E, ainda, segundo o imaginário
fazendeiro, o galo, apelidado de “Ruço”, não gostava de gente preta. João não
gostava de usar o termo afrodescendente – que dizia ser coisa de qualiras.
E sempre foi com essa justificativa que ele, João, por
anos a fio, asseverava nunca ter convidado Jorginho para o rega-bofe na Fazenda
Santa Maria. Lembrava até que, na primeira e última vez que Jorginho se deu ao
trabalho de conhecer a fazenda, “Ruço” o obrigou a entrar num lago de criação
de peixes, porque queria de qualquer jeito “fazer um ovo” no convidado. Ainda segundo João Marreco, “Ruço” sempre
achava que preto era uma galinha – e, assim, para não serem estuprados por
“Ruço”, os pretos que eventualmente compareciam ao local, eram aconselhados a
raspar a cabeça, no local da crista, para eliminar qualquer chance de ser
abusado por “Ruço”.
Além disso, João Marreco tinha o hábito de “cevar” um
veado escolhido matematicamente pelo sistema de cálculos instalado no interior
da fazenda, para ser abatido por “Leleco”, um ex-campeão de Tiro Olímpico contratado
especialmente para matar o animal.
- João Marreco, e como tu conseguias vender o couro do
animal abatido por Leleco com a espingarda bate-bucha, se o couro ficava cheio
de furos? Indagava Robertinho, ansioso
por descrever a estória para outros.
- Leleco mata o bicho com uma “frechada” bem no “olho
do cu” e, assim, não estraga o couro. Afirmava João Marreco.
Detalhe: João Marreco contava todos os fatos da sua
imaginária Fazenda Santa Maria, enquanto aproveitava para atender a clientela,
que também chegava para comprar jornais e revistas. Tinha o hábito e a
responsabilidade de “reservar” os jornais de Robertinho e as revistas de
Medeiros.
A Fazenda Santa Maria, hoje está em festa com a chegada
definitiva de João Gomes. Para nós, que ficamos a ver navios naquele pedaço de
praça, continuaremos esperando o relógio da João Lisboa marcar 18 horas.
Descanse em paz João Marreco, e não esqueça de guardar
o meu exemplar do Jornal dos Sports.
E, João Gomes, finalmente você vai beber o caldo com o
“Rei dos Homens”!
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