quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fazenda Santa Maria



Por mais de dez anos seguidos, todos os fins de tarde estavam reunidos na banca de jornais e revistas do João Marreco: este escriba; Medeiros, o “Rei das fotos” e recortes diversos sobre São Luís; Robertinho, ex-Difusora; Jorginho, da banca do lado, e, Rei dos Homens. Eu e Robertinho esperávamos a chegada do Jornal dos Sports, pois não íamos para casa sem a edição diária do jornal carioca. Vez por outra passava José Salim com o inconfundível vozeirão, dizendo: “Aí tem. E como tem”!

Conversas contando causos fluíam, enquanto esperávamos o relógio da Praça João Lisboa marcar 18 horas – e, pelo menos isso, a gente tinha certeza que era mais fácil “Rei dos Homens” ficar rico pegando “o do caldo”,  do que aquele relógio atingir o horário esperado.

E era João Mendes quem temperava a espera pelo jornal, contando os casos acontecidos na sua imaginária Fazenda Santa Maria, onde tinha o hábito de reunir amigos para uma festa de celebração, que acontecia todos os anos, no dia 30 de fevereiro.

Nomeava um por um os bichos da “fazenda”, parecendo copiar a fábula de George Orwell (“A revolução dos bichos”). João Marreco tinha o prazer de receber convidados especiais para a festa, e, entre esses, sempre se fazia presente Epitácio Afonso Cafeteira – que segundo o narrador, uma vez chegou a demitir o motorista do Palácio do Governo, que teve a ousadia de “perder o rumo” quando se dirigia para a Fazenda Santa Maria e o fez  perder a festança.

Claro que o “Rei da Fazenda” era um galo. Galo preto – que para João Marreco era o símbolo do machismo e da representatividade  da procriação. E, ainda, segundo o imaginário fazendeiro, o galo, apelidado de “Ruço”, não gostava de gente preta. João não gostava de usar o termo afrodescendente – que dizia ser coisa de qualiras.

E sempre foi com essa justificativa que ele, João, por anos a fio, asseverava nunca ter convidado Jorginho para o rega-bofe na Fazenda Santa Maria. Lembrava até que, na primeira e última vez que Jorginho se deu ao trabalho de conhecer a fazenda, “Ruço” o obrigou a entrar num lago de criação de peixes, porque queria de qualquer jeito “fazer um ovo” no convidado.  Ainda segundo João Marreco, “Ruço” sempre achava que preto era uma galinha – e, assim, para não serem estuprados por “Ruço”, os pretos que eventualmente compareciam ao local, eram aconselhados a raspar a cabeça, no local da crista, para eliminar qualquer chance de ser abusado por “Ruço”.

Além disso, João Marreco tinha o hábito de “cevar” um veado escolhido matematicamente pelo sistema de cálculos instalado no interior da fazenda, para ser abatido por “Leleco”, um ex-campeão de Tiro Olímpico contratado especialmente para matar o animal.

- João Marreco, e como tu conseguias vender o couro do animal abatido por Leleco com a espingarda bate-bucha, se o couro ficava cheio de furos?  Indagava Robertinho, ansioso por descrever a estória para outros.

- Leleco mata o bicho com uma “frechada” bem no “olho do cu” e, assim, não estraga o couro. Afirmava João Marreco.

Detalhe: João Marreco contava todos os fatos da sua imaginária Fazenda Santa Maria, enquanto aproveitava para atender a clientela, que também chegava para comprar jornais e revistas. Tinha o hábito e a responsabilidade de “reservar” os jornais de Robertinho e as revistas de Medeiros.

A Fazenda Santa Maria, hoje está em festa com a chegada definitiva de João Gomes. Para nós, que ficamos a ver navios naquele pedaço de praça, continuaremos esperando o relógio da João Lisboa marcar 18 horas.

Descanse em paz João Marreco, e não esqueça de guardar o meu exemplar do Jornal dos Sports.

E, João Gomes, finalmente você vai beber o caldo com o “Rei dos Homens”!

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