A posição inicial se assemelhava a um desenho
esquizofrênico: pernas dobradas apoiando o queixo, mãos sustentando a força
feita pelas pernas. O olhar, apenas contraditório desmentia qualquer
possibilidade de sofrimento. Era, isso sim, olhar observador, contrito, quase
poético.
A água límpida, e por isso transparente, permitia ver o
chão pedregoso e lavado pela correnteza
que, ora parecia fraca e na maioria do tempo parecia mais forte que
qualquer tempestade – e foi ali, quase que numa corredeira desamarrei meu
barquinho de papel do cais da vida, e o fiz navegar apenas com a força do
pensamento.
Vai barquinho, usa minha leveza e meu pensamento,
fazendo deles o teu combustível nesse navegar da vida. Leva minha imaginação
para onde quiseres e transporta minha clareza para longe dos maus para um
acasalamento com a natureza que possa gerar de nós, um novo ser cuja maior
qualidade seja a leveza do ser.
Navegue rápido. Não se deixe molhar nem tolher minha
alegria desse momento que a natureza e o homem feito em mim transformam em
poesia. Navegue prenhe de saber e de pureza, em nome de nós e dos bons que
ainda fazem desta Terra o lugar paradisíaco e habitável. Siga reto e não se
deixe atrapalhar nas curvas nem destruir pelas corredeiras que, afirmo, são
apenas e tão somente imaginárias. Elas são a leveza do pensamento.
Cuidado barquinho!
Desvie da pedra, rápido!
Não se molhe nem estrague meus pensamentos – teu
combustível e a minha leveza.
Já não estou mais como estava, contrito. Descruzei as
pernas e já não pareço mais um esquizofrênico. Levantei para ter a felicidade
de ainda te olhar antes que dobre a última curva. Se conseguires dobrar
incólume, vou te revelar um segredo. Segredo meu. De quando eu era apenas um
menininho brincando com outros barquinhos de papel numa enorme bacia d´água.
Viva!!!
Conseguiste dobrar a curva. E, sem bater na pedra, e
sem molhar. Então vou te contar o meu segredo, que agora será “nosso”. Só
nosso.
É... “no teu sótão, na mais recôndita das tuas
entranhas, levaste parte da minha infância.” Lá estão guardados os meus piões,
as minhas petecas, as minhas brincadeiras preferidas e quase toda a minha
felicidade. Felicidades de criança. Guarde-as, amigo barquinho. Elas são leves
e, com certeza, não naufragarás!
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