quinta-feira, 30 de junho de 2016

Estória pra boy dormir


Como se fora parte de um dos atos de uma peça teatral, o cenário da casa, no distante lugarejo de difícil acesso, era, aparentemente, repetitivo – como requer a encenação da vida em qualquer palco.

Ambrósio Gomes, parte final da distante linhagem familiar dos primeiros colonizadores de Ouro Fino, sem ter conhecido os mentirosos avanços da tecnologia televisiva, depois de um longo dia de trabalho na roça, descansava e ao mesmo tempo se divertia contando estórias vividas e deduções de quem tem a escolaridade da experiência – estórias pra boy dormir.

Ao mesmo tempo em que a conhecida e pequena plateia infantil arrumava os assentos (tamboretes, tocos de madeira, tijolos e até cadeiras estilo macarrão), Ambrósio Gomes, apelidado carinhosamente de “Vovô Memória” ticava o fumo para abastecer o cachimbo, como se aquilo fosse o “chip” necessário para tudo começar, a partir da conexão com as lembranças vividas. E era.

Tudo pronto. Tudo montado. Vai começar mais uma sessão das “... estórias pra boy dormir”!

Abrem-se as cortinas, e, com a palavra, Vovô Memória:

“... era uma vez um lugar que quase todos resolveram chamar de País. Um país onde Alice gostava de ir e de se divertir.

- Vô, quem é Alice? Interrompe, perguntando, um boy.

- Era uma menina que sonhava com tudo que era bom na vida, mas só se preocupava mesmo em dormir. E, gostava tanto de ir para aquele lugar que, quando não estava presente entre os amigos, todos diziam que ela viajara para “o País das maravilhas”!

Pois (continua a estória Vovô Memória), certo dia, cansados de trabalhar em vão, vários operários resolveram mergulhar para pescar e aproveitar para conhecer mais alguma coisa do fundo do mar. Mergulhavam tanto durante o dia, quanto durante a noite. E, certa noite, quatro trabalhadores não retornaram às suas casas. Foi aquele alvoroço.

Vovô Memória olha de soslaio, e percebe que Maurinho bulia mais com o telefone celular, deixando de lado a estória, tão importante e que certamente vai algum dia fazer parte da História daquele lugar.

- Maurinho, menino malino, não quer escutar a estória? Demonstra irritação Vovô Memória, enquanto dá mais uma forte cachimbada.

Maurinho não tinha nada diferente dos meninos de hoje que, quando a mesa está posta para as refeições, em vez de se juntar à família e tirar proveito da presença dela, está sempre a olhar a tela do telefone celular – e isso virou mania nacional, por que os pais já não têm o domínio e ascendência sobre os filhos.

Continua Vovô Memória:

“... depois de alguns dias os familiares começaram a anunciar a ausência dos parentes que haviam saído para pescar e mergulhar. Passaram dias, passaram meses e, assim sem mais nem menos, num certo dia eis que eles reaparecem. Sorrindo, sem caberem em si de tanta felicidade.

- Descobrimos petróleo! Anunciou um dos homens que haviam sumido.

- Descobrimos petróleo, descobrimos petróleo no pré-sal!

Se Maurinho não dava muita atenção às estórias, Alicinha, cochilando e quase dormindo, perguntou:

- Vô, o que é o pré-sal?

- Ora, minha netinha, o pré-sal é uma camada das profundezas geológicas onde está guardada a nossa melhor reserva petrolífera. Será muito bem explorada e todos os lucros serão destinados ao financiamento da educação brasileira.

A essa altura, noite já pesada, Vovô Memória tentava colocar mais fumo no cachimbo para concluir mais uma estória. Foi quando percebeu que Maurinho, o boy, estava dormindo o sono dos justos.

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