No mês em
que se comemora a Abolição da Escravatura (13 de Maio), a Cia Étnica estreia
seu novo espetáculo “Chica”, poeticamente inspirado no mito Chica da Silva. Com
concepção e direção de Carmen Luz, a obra coreográfica constitui o cruzamento
da dança com as artes visuais, a história brasileira contemporânea e a poesia,
revelando a força e a audácia do corpo negro feminino. Contemplado com o Prêmio
Afro 2014, patrocinado pela Petrobras, “Chica” estreia nacionalmente dia 21 de
Maio, no Teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro, com direção de produção de
Sara Calaza.
Chica da
Silva é um interesse antigo da diretora e cineasta Carmen Luz. Mas foi em 2013,
ao tomar conhecimento de um trote ocorrido na Faculdade de Direito da UFMG,
onde uma caloura foi pintada de preto e acorrentada, com uma placa dizendo
“Caloura Chica da Silva” ao pescoço, que Carmen Luz resolveu que era o momento
de começar a conceber o espetáculo.
“Faz muito
tempo Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, me assombra. As lendas
e os estereótipos adesivados em seu corpo negro continuam alimentando o
imaginário sobre a mulher brasileira. Do século XVIII ao XXI todas nós, negras,
mulatas e brancas afrodescendentes, quando punidas, esculachadas, sexualizadas,
bem-sucedidas, poderosas e assassinadas, somos meio Chica da Silva e nossas
histórias seguem assim, pelas beiradas. Alimentada por extensa pesquisa, esta
peça, que inicia a celebração de 21 anos da Cia Étnica, tomou a história e os
fantasmas da “Imperatriz do Tijuco, a Dona de Diamantina” como um mapa para
dançarmos a nós mesmas e a nós mesmos, dançarmos a Chica que somos e, também,
aquelas Chicas cujas histórias nos atravessam diariamente, seja nos palácios,
nas ruas, em nossos afetos ou, como disse Carolina Maria de Jesus, no quarto de
despejo de nossa cidade.” – comenta Carmen Luz.
Pesquisa contesta mito de Chica da
Silva - Assim, dando prosseguimento a pesquisa
da sua Cia Étnica, a respeito da entrada do corpo negro na dança, Carmen Luz
estimulou seus bailarinos e bailarinas a olhar o movimento dos negros nas ruas,
nos mais diversos lugares, em atividades distintas, buscando as Chicas que
atravessaram a história e que estão no corpo deles próprios, bailarinos e
bailarinas da Cia Étnica, que vêm da zona norte e zona oeste, territórios do
Rio de Janeiro.
Carmen, que
também é documentarista, produziu uma série de vídeos que serão projetados em
determinados momentos do espetáculo como signos que traduzem a formação desses
corpos. Assim, revisitando o quintal da nossa história em busca dos corpos dos
territórios desses bailarinos, vai surgindo o espetáculo “Chica”.
“Chica” faz
parte de um projeto mais amplo, dividido em três partes: a primeira é o espetáculo
em questão, a segunda é a realização de um documentário, e a terceira parte é
um vídeo instalação na casa de Chica da Silva, em Diamantina, que agrega o
espetáculo e o documentário.
Atividade
paralela - A convite de Carmen Luz, Liv Sovik, da Escola
de Comunicação da UFRJ, ministra no dia 29 de Maio, às 16h, no Teatro Cacilda
Becker, a palestra “Gênero e política em Chica da Silva” que trata como Chica
da Silva surge e ressurge na cultura brasileira, se propaga e se desdobra em
diversas versões, falas, imagens, figurações. Discutirá alguns traços
recorrentes, vistos de forma negativa e positiva, coincidem com estereótipos da
mulher brasileira: mulata, sedutora, altiva talvez além da conta. O que podemos
entender da recorrência de Chica no imaginário de diversas épocas? O que as
leituras de Chica nos falam sobre como a mulher comum e extraordinária suscita
reações de admiração e repúdio?
O mito Chica
da Silva - Chica da Silva inspirou muitas
histórias, algumas incompreensíveis pela visão de hoje. O primeiro relato a seu
respeito, escrito por um advogado de descendentes de Chica, Joaquim Felício dos
Santos, foi publicado em um jornal entre 1862 e 1864. Nesse relato, Chica era
dominadora, feia e sem atrativos. Nove décadas mais tarde, no Romanceiro da
Inconfidência (1953) de Cecília Meireles, Chica aparece como uma beleza
natural, semelhante à da paisagem. Ela é associada às luzes, ao brilho e aos
diamantes: “Nem Santa Ifigênia / Toda em festa acesa / Brilha mais que a negra
/ Na sua riqueza”. Só em 1963, com o desfile campeão do enredo “Chica da Silva”
da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, se assistiu o primeiro relato sobre
ela em que sua subjetividade aparece: “O contratador João Fernandes de Oliveira
/ A comprou para ser sua companheira / E a mulata, que era escrava, / Sentiu
forte transformação / Trocando o gemido da senzala / Pela fidalguia do salão.”
Foi o desfile do Salgueiro que inspirou Cacá Diegues a fazer o filme homônimo
em 1976, com outra abordagem ainda, mais próxima da versão do século XIX, mas
com uma dose de pornochanchada. Chica ainda foi tema de peças de teatro,
romances, sucesso em 1985 de Boney M., banda de disco afro-caribenha baseada em
Alemanha, e uma telenovela. De tão viva no imaginário, reapareceu em um trote
universitário em 2013, na Faculdade de Direito da UFMG, em que uma caloura foi
pintada de preto e acorrentada, com uma placa com “Caloura Chica da Silva” no
pescoço. Mas foi somente no ano de 2003 que Chica da Silva, que inspirou essas
diversas histórias, cada uma com seus valores e compreensões da época, ganhou o
relato baseado em documentos históricos, Chica da Silva e o contratador de
diamantes, editado pela Companhia das Letras, de autoria da historiadora Júnia
Ferreira Furtado. Chica da Silva foi excepcional, segundo Júnia Ferreira
Furtado, porque foi libertada quase imediatamente depois da compra. Foi
excepcional porque, como diz o samba, trocou o gemido da senzala pela fidalguia
do salão, superou a barreira da cor e do cativeiro zombou. Chica da Silva
morreu em 1796, em Diamantina, e foi enterrada na Igreja São Francisco de
Assis. Seus restos mortais – naturalmente mumificados – foram descobertos na
reforma da igreja, em 1917. Nessa ocasião, o coveiro se assustou com o que
parecia um saco de ossos, jogando-o onde se jogava os esqueletos de animais
selvagens. A criação de mais essa história é incompreensível hoje e
provavelmente o seria durante a vida de Chica.
21 anos da
Cia Étnica - Coreógrafa e diretora artística da Cia
Étnica de Dança, desde sua fundação, Carmen Luz é também cineasta, diretora de
teatro e pesquisadora em dança. Seu foco principal é o corpo negro, suas formas
de movimento e sua história. Aborda, com especial interesse, as gestualidades
das mulheres afro-brasileiras e a corporeidade dos jovens moradores dos grandes
centros urbanos e suas periferias.
Em 1994,
Carmen Luz criou no Rio de Janeiro a Cia Étnica, por um desejo de intervenção
na cena contemporânea da dança carioca: o de pôr em foco os sujeitos e objetos
da diáspora africana. Suas criações traduzem, em forma singular, pesquisas e
reflexões sobre a ancestralidade africana no Brasil e o multiculturalismo
brasileiro. Ao longo da trajetória – que em outubro de 2015 completa 21 anos –
a Cia criou e realizou coreografias, performances, peças de dança e teatro,
instalações coreográficas, recitais, vídeos, documentários e parcerias com
artistas e instituições culturais no Brasil e no exterior. Essas obras foram
vistas por amplo público em teatros, galerias, parques, favelas, salas de
cinema, universidades e outros equipamentos culturais e educacionais em
diversas regiões brasileiras.
Em 1997, a
Cia Étnica mudou-se para o Morro do Andaraí, zona norte carioca, onde manteve
sua base até 2010. Apoiada por sua premiação em concursos públicos de projetos
para capacitação profissional de jovens, recursos próprios e resistência
pessoal, a Companhia pode concretizar e irradiar, do centro daquela favela
carioca, suas principais premissas. Dedicou-se à pesquisa e à criação de
linguagem em dança contemporânea, incentivou a formação de novos públicos,
estimulou a capacitação de novos profissionais para as Artes Cênicas e promoveu
trocas e partilhas com a comunidade local, a sociedade brasileira e
internacional, através da elaboração e gestão de projetos onde a
conscientização sócio-cultural, a experimentação e o desenvolvimento pessoal,
social, profissional e artístico de jovens, crianças e adultos, encontravam-se
alinhados.
Suas
práticas e percurso tornaram-se inspiração para uma quantidade significativa de
jovens negros, brancos e mestiços desenvolverem, atualmente, seus próprios
trabalhos, quer como coreógrafos, bailarinos e intérpretes-criadores; quer como
técnicos e diretores de suas próprias companhias de dança.
Atualmente a
Cia Étnica de Dança é residente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro –
UERJ, apoiada pelo Instituto de Artes/PPGArtes, pelo Projeto Zonas de Contato,
pela Faculdade de Educação Física e pela Coart.
FICHA
TÉCNICA:
Concepção,
Direção e Coreografia: Carmen Luz
Intérpretes-criadores:
Amanda Correa, Ana Gregorio, Alessandro Portugal, Anderson Nascimento, Claudia
Martins, Gessica Justino, Silvia Patricia
Design de
Luz: Bruno Barreto
Figurinos e
Adereços: Lucas Pocian
Música
Original: Rodrigo Brayner
Vídeos:
Carmen Luz e Vick Birkbeck
Preparação
Corporal: Charles Nelson, Amanda Correa, Helena Matriciano e Claudia Martins
Assistentes
de Direção: Amanda Correa e Anderson Nascimento
Ensaiadora:
Amanda Correa
Design de
Som e Trilha Sonora: Alessandro Portugal, Carmen Luz e Rodrigo Brayner
Montagem e
Edição da Trilha: Rodrigo Brayner e Fábrica Nômade Sonora
Assistência
e Operação de Luz: Erick Santos
Cenotécnico
e Contrarregra: Darci Cesar Cezinha
Edição e
Operação de Imagens: Ananda Campana
Consultoria:
Liv Sovik
Divulgação:
Naira Fernandes
Design
Gráfico: Aline Paiva
Web Design:
Rodney Wilbert
Fotos:
Claudia Ferreira e Aloizio Jordão
Fotógrafa
Assistente: Adriana Medeiros
Assessoria
de Imprensa: Ana Andréa e Ney Motta | contemporânea comunicação
Direção de
Produção: Sara Calaza
Contemplado
com o Prêmio Afro 2014, o espetáculo “Chica” tem patrocínio da Petrobras,
realização do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves –
CADON, parceria da Fundação Cultural Palmares, da Funarte e do Ministério da
Cultura, e apoio do COART/UERJ, Contato Zonas, Fábrica Nomade Sonora, Angel
Vianna Escola e Faculdade de Dança.
Site do
Projeto “Chica”: http://projetochicaetnica.wix.com/projeto-chica
SERVIÇO:
CHICA
Local:
Teatro Cacilda Becker – Rua do Catete 338, Largo do Machado, Rio de Janeiro.
Tel. 2265-9933. (Próximo a Estação Largo do Machado do Metrô)
Temporada:
de 21 a 31 de Maio de 2015. De quinta a sábado às 20h, domingo às 19h.
Ingressos:
R$ 10,00
Estudantes,
professores e classe artística: Entrada gratuita mediante apresentação da
carteira.
Duração: 50
minutos
Classificação
Indicativa: Livre
PALESTRA /
ATIVIDADE PARALELA
“Gênero e
política em Chica da Silva”
Dia 29 de
Maio, Sexta-feira, às 16h, no Teatro Cacilda Becker
Convidada:
Liv Sovik, Escola de Comunicação da UFRJ (pós-doutorado pela Goldsmiths
College, University of London, pesquisadora do CIEC e do PACC da UFRJ).
Sinopse:
Chica da Silva surge e ressurge na cultura brasileira, se propaga e se desdobra
em diversas versões, falas, imagens, figurações. Alguns traços recorrentes,
vistos de forma negativa e positiva, coincidem com estereótipos da mulher
brasileira: mulata, sedutora, altiva talvez além da conta. O que podemos
entender da recorrência de Chica no imaginário de diversas épocas? O que as
leituras de Chica nos falam sobre como a mulher comum e extraordinária suscita
reações de admiração e repúdio?
ENTRADA
FRANCA
Por Instituto Maria Preta
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