Em audiência da Comissão do Esporte
da Câmara dos Deputados, a procuradora Geny Helena Fernandes Barroso, do Ministério Público
do Trabalho, alertou sobre situações degradantes a que são submetidos jovens
atletas no Brasil e lembrou que não há uma legislação que os ampare.
A procuradora mostrou aos deputados
fotos de escolinhas de futebol em vários pontos do País, visitadas pelo
Ministério Público e pelo Ministério do Trabalho. A inspeção mostrou jovens
amontoados em condições precárias de higiene.
"Não dá para fechar os olhos e
pensar numa contrapartida ao clube, sendo que a prioridade absoluta é da
criança e do adolescente, e não do clube", afirmou.
A coordenadora-geral de convivência
familiar e comunitária do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (Conanda), Maria Izabel da Silva, reforçou o que disse a
procuradora. Segundo ela, muitos jovens recrutados por essas escolinhas são
impedidos de visitar as famílias e não têm direito a assistência médica.
"Esse tipo de atenção à saúde só
é dado quando o jovem assina o contrato e passa a ir a campo defender o time.
Nós temos notícias de que não existe qualquer cobertura sequer do atendimento à
saúde ou do seguro saúde”, afirmou Maria Izabel.
Ela também criticou o fato de o jovem
não poder sair da instituição para visitar sua família. “Às vezes, temos
notícias de que as famílias não têm recursos financeiros para visitar a criança
ou o adolescente no alojamento. Por que ele não pode sair para visitar sua
família e sua comunidade?”, questionou.
Situação dos clubes - O outro lado da situação, o dos clubes que investem
em categorias de base, foi apresentado por João Feijó, presidente do
Corinthians Alagoano, clube que revelou jogadores bem-sucedidos no exterior,
como Deco, Pepe e Luiz Gustavo.
Feijó disse que os clubes não
investem porque sofrem concorrência desleal de empresários e pediu mudanças na
Lei Pelé (Lei 9.615/98) para impedir esse tipo de atividade. Segundo ele, os
empresários ficam com o lucro depois de os clubes investirem muito em jogadores
que, na maioria das vezes, não fazem sucesso.
"Eu fiz uma visita ao Esporte
Clube Bahia e fiquei abismado. O Departamento Amador tinha mais de 40 atletas
ganhando entre R$ 20 e R$ 30 mil sem fazer nada. Aí esses atletas não viraram
nada. Está aí a razão de o Bahia, que foi campeão nacional, estar falido",
disse.
Feijó cobrou do governo
contrapartidas na forma de compensações fiscais para que os clubes possam
garantir a formação do jovem. “Eu acabei com a categoria sub-15 porque é muito
caro. Não tem contrapartida do governo”, disse. “Tem que impedir a saída dos
jovens para o exterior e inibir a atuação dos empresários de porta de estádio.”
Falta de oportunidade - O deputado Danrlei de Deus Hinterholz (PSD-RS),
ex-jogador de futebol, concordou que a situação dos clubes que formam atletas é
crítica. "Eu vivi e vi. Só 1% dos meus colegas se transformam em atleta, e
a maioria não dá certo, a maioria não teve oportunidade de estudar, um hoje é
motoboy ", disse.
A Comissão do Esporte da Câmara dos
Deputados promoveu a audiência para discutir propostas que regulamentam a
formação de atletas entre 14 e 21 anos no Brasil.
O debate foi sugerido pelo deputado
José Rocha (PR-BA), que é relator de dois projetos sugeridos pela Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual da Criança e do Adolescente.
O objetivo das propostas é prevenir abusos praticados por escolinhas de
formação esportiva (PLs 8038/14 e 8287/14).
Os projetos aguardam votação na
comissão.
Reportagem - Antônio Vital
Agência Câmara Notícias
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