A terceirização de tarefas nos presídios brasileiros
foi tema de audiência nesta quinta-feira, na Câmara. Convidados defenderam a
ideia, mas parlamentares argumentaram que o poder de custódia pertence ao
Estado.
Os participantes da reunião na
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Carcerário, nesta
quinta-feira (28), defenderam a gestão compartilhada de presídios entre os
setores público e privado. Segundo representantes de empresas, do Ministério
Público e de gestores, o sistema pode ser a forma de dar um tratamento mais
digno aos presos brasileiros, garantindo seu conforto na prisão e sua ressocialização.
Mesmo o custo de um preso no sistema
de cogestão – cerca de R$ 4 mil por mês – foi minimizado pelos participantes do
evento. “É um investimento, porque você está prevenindo a retomada do ciclo de
reincidências no crime”, afirmou o promotor de Justiça em Alagoas, Cyro
Blatter.
A comparação com o setor público
também é injusta na visão do policial militar Carlos Alberto Luna,
ex-secretário de Ressocialização e Inclusão Social de Alagoas. Ao argumento de
que as empresas privadas estão interessadas no lucro, ele respondeu que na
cogestão todas as atividades são previstas e catalogadas, podendo ser
fiscalizadas. “Quanto o Estado gastaria para oferecer as mesmas condições de
uma unidade onde a gestão é compartilhada?”, questionou Luna.
Regulamentação - O presidente da Associação Brasileira de Empresas
Especializadas na Prestação de Serviços a Presídios (Abesp), Odair de Jesus
Conceição, pediu aos parlamentares a criação de uma lei que regulamente a
cogestão.
Presidente de uma empresa que atua no
ramo desde 2002, ele sugeriu também a elaboração de leis de incentivo ao setor.
Conceição acredita que o sistema pode ser expandido para além das oito firmas
existentes no País em razão da “ausência de políticas públicas para o setor”,
sempre com orçamento insuficiente.
Hoje, em todo o País, 13,5 mil presos
estão em alguma unidade gerida pelo sistema de cogestão. Os contratos atuais
são feitos com base na Lei de Licitações (8.666/93) ou na Lei de Parceria Público-Privada (11.079/04).
Atividades delegadas - As tarefas que podem ser terceirizadas são
basicamente as de hotelaria (roupa de cama, alimentação e uniforme) e as de
assistência médica, odontológica, educacional, profissional e jurídica. “O
Estado continua sendo o detentor da pena, nisso não há interferência”, observou
Odair Conceição.
Segundo Cyro Blatter, não há vício
legal na delegação das tarefas especificadas. “Vício é violar o poder do
Estado, que não é o caso. Processos administrativos e disciplinares continuam
sendo do juízo de execução.”
Por outro lado, segundo ele, haveria
maior qualidade na prestação de serviços, incluindo mais entrevistas com
advogados e consultas médicas, contratos com objetivos claros, investimentos em
ressocialização, agilidade nas contratações e nas demissões e rapidez na solução
de problemas.
O número de presos por funcionário
também seria menor, de acordo com Odair Conceição.
Críticas - Na audiência, a possibilidade de terceirização de
atividades nos presídios foi criticada pela deputada Erika Kokay (PT-DF). “A
função de custódia é do Estado, e o Estado tem que atuar dentro do sistema
carcerário. É preciso atuar com políticas de saúde, de educação, de geração de
renda e de emprego, e não apenas dizer que há uma falência do sistema e
entregar de mão beijada para a iniciativa privada, que se pauta pelo lucro”,
avaliou Kokay.
A deputada Eliziane Gama (PPS-MA)
também não se sentiu convencida pelos palestrantes. “Parece que estamos abrindo
mão de uma responsabilidade, e que a mesa [da comissão] quer o privado”, disse.
Proposta que aconteça - O presidente da CPI, deputado Alberto Fraga
(DEM-DF), no entanto, lembrou que o assunto já havia discutido com servidores
do sistema prisional, que se posicionaram contra a terceirização.
“Só reclamei porque eles não trouxeram
dados. Algo precisa ser feito. O que me entristece é que o governo sabe dos
problemas, mas nada acontece. Nós, da CPI, temos que apresentar uma proposta
que aconteça”, disse.
Segundo Fraga, os integrantes da
comissão deverão visitar os presídios onde funciona o sistema de cogestão. (Reportagem
– Noéli Nobre - Agência Câmara Notícias).
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