quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Baião de dois com farofa de toucinho




Naquela casa grande formada por cinco quartos, uma sala ampla e uma cozinha idem, além de corredores no comprimento da residência e banheiro no quintal. No mesmo cenário, a cena era repetida, como se fora a apresentação de uma peça apresentada todos os dias. Quase sempre entre 12 e 13 horas.

Quatro atores e uma única atriz – na peça “A hora do almoço”, com autoria de Alfredo Ramos e direção magistral por Jordina Ramos. Alfredo, o pai; Jordina, a mãe e nós (Francisco, Adilson, José e João Hélio – nessa ordem de nascimento), os atores.

O cenário começava a ser montado, quando Jordina “catava” o feijão, retirando pedras, grãos apodrecidos e os esfomeados gorgulhos. Depois da lavação dos grãos, a panela era posta a cozinhar e, só quando o feijão já estava amolecendo, o arroz era acrescido. Para “temperar”, apenas a água que servira para lavar as 250 gramas de toucinho.

Pronto o “baião de dois”, minha mãe passava a cuidar da cereja do bolo: pequenos pedaços do toucinho iam para a frigideira e começavam a ganhar status de comida francesa. A banha retirada era guardada num papeiro amassado e sem cabo para servir de tempero futuro ou para fritar ovos e carne de fiambre em conserva.

Cebola roxa era acrescentada e frita. Depois, a farinha para garantir alguma coisa que tiraria a barriga da miséria, pelo menos naquele dia. Nome disso tudo que nos fazia a alegria e mantinha a dignidade: baião de dois com farofa de toucinho. Uma maravilha! Principalmente para quem ganhou pouco dinheiro e viveu apenas trabalhando, deixando de lado o que pertence a outrem.

Por anos a fio, foi assim que Alfredo/Jordina criaram uma “reca” de cinco filhos – quatro machos e uma fêmea.

Anos depois, com a juventude chegando, as cenas domésticas começaram a mudar. Dos quatro filhos, três haviam começado a trabalhar para custear o próprio sustento – e até que sobrava para bebericar umas “talagadas quentes”, a mesma água que passarinho não bebe.

As bebidas que faziam a moda naqueles tempos – décadas de 50/60/70 – eram Ron Montila, Ron Bacardi e as boas cachaças da época. A cerveja não dominava a preferência, mas também era consumida em boa escala. Em São Paulo, a preferência recaía sobre o “traçado” Tatuzinho ou Caninha da Roça com Underberg.

Foi naquele clima preferencial que começamos a  “dar umas lapadas nos beiços” e a comprar e pagar o que bebia. Muitos poucos amigos (para beber), alguns oriundos da convivência escolar no Liceu do Ceará e, outros adquiridos na forte participação política-estudantil.

Chegava na bodega e determinava: “bota uma bicada aí!” Depois que bebia a primeira e o bodegueiro mostrava o tira-gosto, mandava descer uma “quartota”! (“Quartota” era uma quarta da garrafa de cachaça).

Foi nas bodegas dos bairros de Fortaleza e no baixo meretrício (Curral das Éguas, Franco Rabelo, Chatô da Vó, Buate Oitenta) que a putaria necessária ao amadurecimento começou.

Engraçado que, naqueles tempos, era que, “frequentador” ou “puta” que usasse qualquer tipo de droga, era expulso de onde estivesse. Nos dias atuais, esses locais fornecem a própria droga, porque fica mais fácil roubar o embriagado e drogado.

Guardamos na lembrança a forma como as meretrizes faziam a assepsia dos frequentadores que pagavam pelo sexo. Sem ar refrigerado, sem banheiro com chuveiro ou ducha, a “mobília” do aposento tinha apenas uma cama de casal, uma rede para quem gostava de fazer sexo mais “engatado” e um tamborete de madeira onde repousavam uma bacia de ágata com um rolo de papel higiênico – toalha, nem como luxo! – um sabonete Sigel, que era a marca mais vagabunda que se produziu no Brasil e uma jarra com água.

Terminada a sessão de sexo (era muito difícil alguém fazer aquilo mais de uma vez, haja vista que a mulher de vida muito difícil estava sempre ansiosa para “faturar” mais um visitante e garantir a feira livre do dia seguinte) a meretriz iniciava por fazer nela a assepsia. De cócoras, jogava água na xereca, passava sabonete Sigel numa única oportunidade e enxaguava com pouca água. Levantava e fazia a assepsia no pênis do parceiro. Era ali que, sem a preocupação de preservativos, muitos adquiriam doenças venéreas.

Recebia um “tabefe” na cara o homem que propusesse sexo anal ou oral, esse último feito pela mulher. Hoje, sabemos, os tempos são outros e há quem afirme que, muitas mulheres casadas fazem isso para não perder o status de “matriz”.

De novo, voltamos ao cenário. Não mais aquele da casa grande com muitos cômodos, o baião de dois e a farofa de toucinho. Agora o cenário é outro, e não é mais uma cena da peça teatral da vida.

É uma nova cena. A cena do aprendizado na escola da vida, onde se começa a ver e distinguir, pela convivência, os bons e os maus. Os amigos que o tempo e o afastamento aproximam e distanciam.

Um balcão de madeira, uma balança Filizola antiga, pesos de 1 Kg que nunca passaram de 900 gramas, papel de embrulho para enrolar pão, farinha, arroz, bolachas e manteiga – naqueles tempos, vendida em pequenas poções. Folhas de revistas (O Cruzeiro, Manchete) para embrulhar sabão, feijão, salgados.

Fazia-se o pedido: uma garrafa de cachaça, vários copos ou apenas dois se a conversa fosse apenas entre dois amigos. Duas latas de sardinhas Coqueiro ou Gomes da Costa – são as marcas mais antigas na praça -, duas cebolas roxas, farinha seca e uma folha de papel de embrulho. Fazia-se a farofa no próprio papel sobre o balcão aproveitando o óleo da conserva. Cortava-se a cebola roxa em pequenos pedaços e usava-se um pedaço de papelão como colher. O “bodegueiro” apenas pedia que não se ficasse “na frente” do balcão. Ficava-se num local mais afastado para permitir o acesso dos demais fregueses sem qualquer interrupção.

Podemos assegurar que não existe tira-gosto melhor. E, o melhor era porque tudo acontecia de forma improvisada. Até mesmo a incômoda visita da mulher ou dos filhos de alguém que estivesse bebendo, com o conhecido dizer:

- Mamãe mandou buscar arroz, uma carteira de cigarros e uma barra de sabão!

Agora, sinceramente, alguém responda:

- Depois de viver tudo isso, derramar o próprio sangue nos movimentos estudantis que resultaram infrutíferos, porque aproveitados por alguns dos vermes pustulentos que aparecem naquela foto histórica, que só a citação do nome dá ânsia de vômito, alguém da terceira idade vai sair da sua casa para participar de protestos que não juntam a metade das paradas gays?

Vai nada, siô! Só se a vida não tivesse nos ensinado nada.

 

 

 

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