Consulta feita pela
Agência Brasil junto a lideranças na Alta Casa demonstra que proposta não deve
prosperar. “Não conseguirá 49 votos favoráveis”, diz o líder do PT, Humberto Costa.
Depois da aprovação pelo plenário da Câmara dos
Deputados, na última semana, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171/93
que reduz, em alguns casos, a maioridade penal de 18 para 16 anos, a
responsabilidade por levar a discussão adiante está com os senadores, que
precisam submeter o texto a dois turnos de votação. A tarefa, no entanto, não
será fácil. Após o resultado da Câmara, o presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB-AL), voltou a dizer que, pessoalmente, é contrário a proposta.
“Eu não sou a favor, mas não significa que a
matéria não vá tramitar no Senado Federal, que já votou a atualização do ECA
[Estatuto da Criança e do Adolescente] que eu acho que, do ponto de vista da
sociedade, é uma resposta mais consequente”, disse.
Renan se referia ao PLS 333/15, que altera o ECA,
de autoria do senador José Serra (PSDB-SP), que teve o substitutivo do senador
José Pimentel (PT-CE) aprovado pela Casa. O texto aumenta o tempo de internação
de jovens infratores que tenham cometido crimes hediondos dos atuais três para
até dez anos. Aprovada em julho pela Casa, a matéria seguiu para análise da
Câmara.
O mesmo texto prevê uma alteração no Código Penal
para agravar a pena do adulto que praticar crimes, acompanhado de um menor de
18 anos ou que induzir o menor a praticá-lo. A pena do maior será de dois a cinco
anos, mas poderá dobrar para os casos de crimes hediondos.
Outro ponto proposto por Pimentel prevê que os
adolescentes passem por avaliação a cada seis meses, feita pelo juiz
responsável pelo caso. Assim, o magistrado poderá analisar e optar por liberar
antecipadamente, se for o caso, o jovem da reclusão. Nos centros de internação,
os jovens também terão que estudar até concluir o ensino médio
profissionalizante e não mais somente o ensino fundamental, como é previsto no
ECA hoje.
Já a PEC aprovada pelos deputados prevê redução da
maioridade nos casos de crimes hediondos – como estupro e latrocínio – e também
para homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. Os jovens de 16 e 17
anos deverão cumprir a pena em estabelecimento separado dos adolescentes que
cumprem medidas socioeducativas e dos maiores de 18 anos.
José Pimentel criticou a proposta de mudar a
Constituição e ressaltou que com a alteração no ECA, o Senado já antecipou sua
posição sobre o assunto, sinalizando que a proposta dos deputados deve ficar
estacionada no Senado. “O texto que a Câmara aprovou simplesmente pega esse
menor e leva direto para dentro de um presídio, não tem a obrigação nem de
educar e nem de dar uma profissão. Já com o adulto que utiliza a mão de obra
desse menor na consumação de um crime, continua tudo como está. São visões
diferentes para enfrentar o mesmo problema”, defendeu.
O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), disse
que acha difícil o texto de redução da maioridade aprovado na Câmara avançar no
Senado. “Não acredito que essa PEC prospere no Senado. Meu sentimento é de que
a ampla maioria dos senadores se opõe a ela. Então não creio que essa PEC que
veio da Câmara, que é um retrocesso, com toda oposição da bancada do PT, vá
andar no Senado. E, se andar, e vier a plenário, acredito que será derrotada.
Não conseguirá 49 votos favoráveis”, disse o líder.
A proposta aprovada pelos deputados também enfrenta
resistência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “A redução da maioridade
penal é inconstitucional, viola princípios de Direito Internacional, portanto
ela é inconvencional e além de tudo isso, não vai reduzir a criminalidade.
Portanto, ela é materialmente ineficaz. Por esses motivos todos a OAB é contra
a redução da maioridade penal”, explicou o presidente da comissão de Direito
Penal do Conselho Federal da OAB, Pedro Paulo de Medeiros.
Sobre o texto aprovado pelo Senado, o advogado
disse que a entidade ainda não tem uma opinião formada porque ainda não foi
provocada sobre o assunto, mas lembrou que nas discussões sobre o tema na
entidade, foi dito que um aprimoramento do ECA sobre o assunto talvez fosse
mais aconselhável do que a redução da maioridade penal.
Para a Secretaria de Direitos Humanos, não há necessidade
de uma nova legislação para jovens infratores. “A gente é pioneiro no mundo em
relação a ter uma legislação própria para crianças e adolescentes. Temos que
reconhecer isso. Obviamente que ajustes são necessários em alguns aspectos, mas
os mais importante é preservar o melhor interesse da criança e do adolescente.
O que precisamos é dar condições aos entes federados para que eles apliquem a
Lei”, ponderou o secretário substituto da Secretaria Nacional de Promoção dos
Direitos da Criança e do Adolescente, Rodrigo Torres.
De 1993 até hoje, o Congresso acumula mais de 60
propostas envolvendo jovens infratores. Algumas alteram o Estatuto da Criança e
do Adolescente para endurecer as medidas socioeducativas nesses casos, outras
sugerem a redução da maioridade penal.
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