Talita Fernandes
BRASÍLIA – A Câmara dos Deputados ingressou com um
recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo que seja anulada uma ação que
teve como alvo o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O parlamentar
está entre os 50 políticos investigados na Operação Lava Jato perante o
Supremo. A expectativa é de que Cunha figure ainda entre os primeiros políticos
denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A previsão é de que
isso aconteça nas próximas semanas.
No pedido, a Câmara argumenta que a ação,
autorizada pela Suprema Corte, “desrespeitou prerrogativas fundamentais da
Constituição e a harmonia dos Poderes, necessárias para um exercício altivo e
independente do Poder Legislativo para a sobrevivência de uma democracia
civilizada”, diz o documento, assinado pelo Advogado-Geral da União substituto,
por Fernando Luiz Albuquerque Faria, em nome da Casa Legislativa.
A ação pede que seja anulada a validade dos
documentos obtidos em maio no Departamento de Informática da Câmara. O
documento obtido pelos procuradores pode ser uma das provas de que Cunha foi
beneficiário do esquema de desvios da Petrobrás. Apesar de o pedido ter chegado
à Corte apenas três meses depois da ação, o advogado-geral substituto argumenta
que não há vencimento de prazo porque até o momento a Câmara não foi comunicada
sobre o pedido da PGR.
A ação foi solicitada pela Procuradoria-geral da
República e autorizada pelo ministro Teori Zavascki, relator da Jato no STF.
Como publicou o Estado, no dia 4 de maio Zavascki autorizou que um oficial de
Justiça fosse ao Departamento de Informática da Câmara para retirar cópias que
pudessem comprovar a autoria de Cunha de um requerimento que poderia ajudar nas
investigações referentes ao suposto envolvimento do presidente da Câmara.
Com a ação na Câmara, a Procuradoria buscava
elementos que pudessem comprovar a fala do doleiro Alberto Youssef, um dos
delatores da Lava Jato. De acordo com o doleiro, Cunha seria o verdadeiro autor
de requerimentos que pediam ao Tribunal de Contas da União (TCU) a auditoria
dos contratos entre Mitsui, Samsung e Petrobrás. De acordo com Youssef, os
requerimentos foram criados pela ex-deputada federal Solange de Almeida, em
2011, a pedido de Cunha e serviriam como uma “ameaça”, após a suspensão de um
pagamento de propina oriundo desses contratos que teria Cunha como
beneficiário.
Os dois requerimentos foram feitos na Câmara em
2011 e oficialmente são de autoria da ex-deputada federal Solange Almeida
(PMDB-RJ), hoje prefeita da cidade de Rio Bonito, no Estado do Rio de Janeiro.
Investigadores suspeitam que as representações
tenham sido arquitetadas por Cunha, com base no depoimento de Youssef. De acordo
com o delator, o presidente da Câmara seria um dos beneficiários das propinas
vindas do esquema envolvendo um contrato de aluguel de um navio-plataforma das
empresas Samsung e Mitsui. Ele teria encomendado os pedidos.
A ação na Câmara ocorreu em decorrência de um
depoimento pelo ex-diretor da área de informática da Câmara dos Deputados Luiz
Antonio Souza da Eira. O funcionário foi destituído do cargo por Cunha logo
depois de um vazamento sobre a autoria dos requerimentos.
Em parecer enviado ao Supremo, o procurador-geral
da República, Rodrigo Janot, escreveu que as informações prestadas pelo
ex-diretor “reforçam as suspeitas” de envolvimento de Cunha em requerimentos
alvo das investigações da Operação Lava Jato. Em depoimento a procuradores e à
Polícia Federal, um dia após ser demitido por Cunha, Eira afirmou que a versão
inicial do requerimento da auditoria do sistema de informática da Câmara foi
gerada com a senha, “pessoal e intransferível”, de Cunha. A informação foi
utilizada para sustentar o pedido de Janot ao Supremo para coletar documentos
no setor de informática da Câmara.
À época da ação, Cunha tratou o pedido do PGR como
"retaliação". Desde que foi aberto inquérito contra o presidente da
Câmara no STF, ele tem negado com veemência qualquer envolvimento com o esquema
de desvios da Petrobrás.
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