Em uma das
suas últimas atividades políticas, Zé Antônio falou no seminário da UFALsobre
os 50 anos da Ditadura Militar, no dia 1º de abril deste ano (Foto: Edberto
Ticianeli).
José Antônio de Magalhães Monteiro, natural de São Luís, Maranhão, era
dirigente do PCdoB e faleceu sábado (19) em Maceió. Em entrevista
concedida em 2011 a Edberto Ticianeli, ele conta parte da sua trajetória
política.
No dia 9 de novembro de 2011 encontrei o Zé Antônio na sua casa para
gravarmos essa entrevista. Ela faz parte de uma reportagem inacabada sobre a
história da Ação Popular em Alagoas.
Mesmo tendo uma relação política de muita proximidade com o Zé Antônio em
virtude de termos atuados juntos por muito tempo no PCdoB, notei que ele não
ficava à vontade quando tinha que lembrar alguns momentos difíceis da sua vida.
Publico a entrevista como homenagem a uma das pessoas mais íntegras que
conheci na atividade política. A minha admiração pela sua postura corajosa era
maior por que sabia que ele, como um humanista, odiava os conflitos humanos.
Mas isso nunca o impediu de enfrentar os adversários políticos, mesmo quando
foi preciso colocar em risco a própria vida.
* * *
P. O que o levou e ser padre?
Decidi desde criança. Meu pai e uma tia que me criou me botaram na cabeça
que poderia ser padre. Tudo porque eu tive um tio que foi padre, e que morreu
tuberculoso quando eu tinha seis anos, um pouco depois de eu ter perdido a
minha mãe. Meu pai achava que eu poderia ser o substituto do irmão dele. Assim,
com 12 anos eu fui estudar no seminário.
Fui também porque meu pai era muito pobre e no seminário eu ia estudar de
graça. Depois de seis anos de seminário, quando terminei a parte dos estudos
que se chama seminário menor, que correspondia ao ginásio e científico da
época, fui cursar Filosofia, ainda no Maranhão
P. Como se deu a sua vinculação à Ação Católica?
Foi no curso de Filosofia que tive contato com um padre que era o
assistente estadual para a JOC [Juventude Operária Católica] do Maranhão, que
atuava praticamente com comerciários, pequenos comerciantes e empregadas
domésticas, já que no Maranhão, naquela época, não havia um operariado. O
objetivo era trazer para a Igreja Católica os trabalhadores.
Terminei o curso de filosofia em 1962 e fui para Fortaleza estudar
teologia. Lá continuei vinculado à JOC, até que 1964, o Seminário de Fortaleza
fechou e fui terminar o curso em Recife, onde mantive meus vínculos com a JOC,
mas ainda no objetivo de trazer jovens para a Igreja. Em Recife também me
aproximei da JUC [Juventude Universitária Católica] através de um grande amigo
meu, o Rui Frazão.
Foi com ele que comecei a questionar o porquê de somente levar jovens
para a Igreja se também podíamos fazer um trabalho de conscientização por
melhores condições de vida, como a JUC vinha fazendo. Aí eu adquiri a
consciência de que o caminho era esse: fazer caridade e assistência, mas também
conscientizar. Foi também através da JUC e do MEB [Movimento de Educação de
Base] que eu me aproximei do método Paulo Freire de educação. Eu cheguei a ser
monitor do MEB em Recife.
Na JOC éramos movidos pela reflexão de que toda ação é política, não a
política partidária, mas a política como ação da cidadania à luz da fé cristã.
Nos anos 70 éramos guiados pelo lema de que a fome de Deus é necessária, afinal
somos evangelizadores, mas compreendemos que a fome de pão é mais urgente. Essa
visão de parte da Igreja apareceu quase que como uma reação ao golpe militar.
Era uma motivação para a gente se empenhar na luta pela libertação da opressão
ditatorial.
P. Como foi sua passagem da Ação Católica, uma organização de base da igreja, para a Ação Popular, uma organização política de esquerda?
P. Como foi sua passagem da Ação Católica, uma organização de base da igreja, para a Ação Popular, uma organização política de esquerda?
Começou com Rui Frazão em 1964, mas não era uma relação como era com a
JUC. Eu nem entendia muito o que era a AP. Foi o Rui Frazão, já depois que eu
tinha sido ordenado sacerdote, que foi me conscientizando dessa necessidade de
não só exercer o cristianismo, mas ser cidadão cristão com uma prática
política.
P. A Ação Católica aceitava bem essa aproximação com a Ação Popular?
Não era toda a Ação Católica que tinha essa compreensão, era somente uma
ala, uma ala de esquerda, que entendia a ação católica como também política.
Essa visão da Ação Católica também tinha muita coisa de, digamos assim,
aperfeiçoamento da prática da educação de Paulo Freire. O exemplo eram os
monitores do MEB no interior, que tinham muito clara essa compreensão, de que
ser cristão é ser bom político.
Tudo que nós fazemos é política. Nós nos relacionamos com a natureza, o
homem também é natureza, e esse relacionamento homem a homem é uma relação
política. Isso levava a compreensão de conduzir, através da prática
católica-cristã-cidadã, à libertação e o bem estar material do homem.
P. Depois da ordenação, como se deu a sua militância política?
Voltei para o Maranhão em 1965, designado para uma paróquia muito pobre,
no município de Urbano Santos. Eu sabia que a situação do camponês no Maranhão
era ruim, mas não sabia que ela era tão trágica, tão opressora, como a que eu
vi lá. A minha opção foi tentar aplicar na minha evangelização a prática do
método Paulo Freire, de conscientização. Atuávamos juntos aos sindicatos
rurais, considerando que eles mesmo estando amordaçados, sob intervenção e com
os presidentes indicados pelo presidente da República, mas era a única
organização onde o camponês valia a pena participar.
P. Com quem você se articulava politicamente em Urbano Santos?
Eu tinha amigos na AP. Minha articulação era com o pessoal de AP que
tinha ligação com a guerrilha do Araguaia. Na época eu não tinha conhecimento
disso, mas depois eu soube que eles me consideravam uma referência, que
justificava a ação guerrilheira deles. Tanto que, em 1968, Manoel da Conceição,
quando foi baleado e internado em um hospital de lá, me pediu para que
escrevesse uma carta respondendo ao governador José Sarney, que havia oferecido
uma perna mecânica para ele. Na carta ele não aceitava a doação e dizia que a
perna dele eram os companheiros que ficaram no Pindaré [município do Maranhão].
A redação da carta foi minha e chegou até ele escondida. Ele reescreveu com o
próprio punho e enviou para as comunidades.
Essa minha ação em Urbano Santos, fazendo um trabalho além da
evangelização, principalmente nos sindicatos, foi notada. Os sindicalistas me
procuravam para pedir apoio e eu ajudava, mesmo achando que na sua grande
maioria eles eram alienados. Eu chegava a participar, mesmo discretamente, de
algumas reuniões deles. Em 1970, o delegado de Urbano Santos escreveu um
bilhete para a Polícia Federal dizendo que eu era subversivo, que pregava a
libertação dos povos. Fui preso por causa dessa denúncia.
Quando eu estava preso, no final de uma das sessões de tortura, o célebre
João Batista Campelo, leu o bilhete que me denunciava. Eu só reconheci que
tinha sido escrito pelo delegado da minha cidade porque tinha uma frase que ele
sempre usava: eu sou brasileiro e amo a minha pátria.
P. Após a prisão e a tortura, seu trabalho político ficou mais difícil em
Urbano Santos?
Depois da prisão eu não tive coragem de ficar no Maranhão. Tinha alguns
amigos na Polícia Federal que me disseram que eles me pegariam ainda. O
resultado é que eu fui exilado para o Canadá, onde fiquei de 1970 até 1974, e
fiz o curso de Sociologia. Em 1974, morrendo de saudades, voltei para o
Maranhão, mas não pude ficar lá. Fui para Recife ainda em 1974 e lá eu rompi
com a Igreja. Foi uma decisão difícil, mas era uma questão pessoal: a Igreja
não me atraia mais.
Fui trabalhar numa ONG chamada FASE (Federação de Órgãos para a
Assistência Social e Educacional). Era uma organização nacional que também
atuava com os camponeses. Em 1977, um amigo alagoano, o arquiteto Oscar
Miranda, me informou que o Pólo Nordeste, em Alagoas, estava precisando de um
sociólogo. Foi assim que eu vim para a Secretaria de Agricultura. Eu fui
trabalhar na área da educação e saúde no meio rural.
P. Foi difícil recomeçar a luta política em Alagoas?
Em Alagoas eu tive contato com os “Antigos da JOC”, como a Alba Correia e
a Lígia Frota. Eu já vim recomendado pelo pessoal da JOC de Recife. Em Maceió,
até hoje, continuamos a nos encontrar. A novidade é que surgiu uma nova JOC,
com outro pessoal e com compreensão diferente da JOC da minha época. Mesmo
assim, ajudo eles como assessor. É uma JOC que não tem relação com a Igreja.
P. Você tinha uma militância política na igreja que defendia a Teologia
da Libertação. Como reagia a igreja em Alagoas a essas ideias?
Quando eu cheguei em Maceió, o arcebispo era dom Miguel Fenelon Câmera,
que foi meu professor no Seminário de Fortaleza. Ele era de uma linha que não
deixou proliferar a Teologia da Libertação em Alagoas. Era mais um trabalho com
as pastorais da juventude, da terra, era outro tipo de trabalho, diferente da
JUC e da JOC. Me parece que foi na Pastoral da Terra que houve alguma
aproximação com a Teologia da Libertação.
P. Existia em Alagoas alguma liderança da igreja que defendia a Teologia
da Libertação?
Não me lembro de nenhuma. Lembro bem do bispo que lhe sucedeu, dom Adelmo
Machado, que era mais atrasado que o antecessor. Ele voltou a acionar as
pastorais, mais num sentido claramente só de evangelização. Tive contato também
com dom José Lamartine Soares, que também foi meu professor no Seminário. Era
meu amigo, mas muito cioso com a Ação Católica. Uma vez, eu levei uns jovens lá
no Seminário, onde ele morava. Falei para ele e para alguns seminaristas sobre
o movimento da Ação Católica, a JOC e o método Paulo Freire. Ele ofereceu
alguns seminaristas para trabalhar com a gente, mas nenhum se interessou. Uma
vez, no Bom Parto, onde a JOC era forte, fizemos uma atividade de
conscientização sobre a gravidez na adolescência, e o único que apareceu rezou
o terço e foi embora. Nunca mais apareceu.
P. Qual a sua avaliação da ação política da Igreja hoje?
P. Qual a sua avaliação da ação política da Igreja hoje?
Acho que a Igreja no Brasil tem uma preocupação mais avançada do que nos
anos 70. Houve certo avanço, mas o conservadorismo prevalece. O pessoal que tem
uma visão dos problemas sociais é mínimo. Eu conheço dois padres aqui Alagoas
que têm uma visão maior, mas me parece que eles não são bem vistos. Padre
Manoel Henrique e outro padre, que não me recordo o nome e que foi assistente
de JOC aqui.
O que eu vejo em quase toda parte é uma certa preocupação com a
evangelização. Mas há exceções: lá na Paraíba tem alguma coisa um pouco mais à
frente.
(Matéria publicada por
Geraldo de Majella, na coluna “Pelas Ruas que andei” no portal Jornal da Besta
Fubana.)
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