Mircea Lucdescu, técnico do Shaktar
Donetsk.
O romeno Mircea Lucescu,
técnico do Shakhtar Donetsk, nunca escondeu sua admiração pelos jogadores
brasileiros, mas sua paciência parece ter se esgotado. Em entrevista ao site
oficial do clube ucraniano, o treinador disparou contra o profissionalismo dos
atletas do país e fez duras críticas ao Fluminense, que tenta repatriar o
Wellington Nem.
"Afinal de contas, não
existe só o talento, mas também os critérios morais pelos quais se avaliam as
pessoas. Os treinadores fazem frequentemente críticas dirigidas aos jogadores
brasileiros. Dizem que é difícil manter mais do que dois na mesma equipe. Não é
nada fácil trabalhar com eles", disse o treinador, subindo o tom contra
Bernard e Nem.
"O mesmo é válido para o
Bernard: chegou um mês e meio atrasado depois da assinatura do contrato. Mas
nós o entendemos: ele é jovem. Mas agora está de novo atrasado, eu lhe dei duas
semanas para descansar depois da copa, do mesmo jeito que dei ao Srna. Ele
deveria ter vindo duas semanas depois, supostamente, no dia 27, 28 no máximo, e
ele ainda não veio."
"O mesmo com o Nem. Dizem
que o Fluminense quer ficar com ele. Mas foi o Fluminense que nos apresentou o
Nem quando ele estava tendo problemas na virilha fazia 8 meses e não nos
disseram nada sobre isso. E agora querem pegar ele de volta como agente livre.
No ano passado nós pagamos um bom dinheiro pelo passe dele e o próprio Nem
assinou um bom contrato para si. E acabou não jogando nunca, esteve sempre
lesionado. Para falar a verdade, eu nem sei direito o seu nível de suas
capacidades!", seguiu, sobre Wellington Nem.
"E agora eles querem ele
de volta, livre, e exercem pressão sobre o jogador para que ele fique no
Fluminense. Desse jeito apenas complicam a situação para ele: a relação com a
equipe técnica e os colegas de equipe. A impressão que dá é que nos tomam por
tolos. Nos venderam o jogador e agora criam pressão para que, passado um ano,
esse mesmo jogador regresse como agente livre! A mim não me surpreende o
comportamento de alguns jogadores, quando a própria liderança do seu clube se
comporta desse jeito! Enviam jogadores talentosos para a Europa sem se
preocuparem com a educação de seu relacionamento profissional. Nem com as
obrigações ditadas pelo contrato que eles próprios assinaram. No que diz
respeito a isso eu me sinto, evidentemente, muito insatisfeito", encerrou.
Leia
abaixo, na íntegra, a entrevista de Lucescu:
É difícil trabalhar com os brasileiros?
É muito difícil trabalhar com
eles. Eu gosto muito deles e aprecio demais o futebol brasileiro. Mas o seu
profissionalismo deixa a desejar mais. Quando se assina um contrato, eles
precisam entender que esse contrato deve ser respeitado. O Shakhtar subiu para
um nível que não pode ter jogadores pouco profissionais. Porque do Shakhtar se
exige unicamente que melhore os resultados. E eu chamo a atenção dos agentes
dos nossos brasileiros que não é correto conspirarem para levar daqui os
jogadores. Eles trabalham contra os seus jogadores! Os agentes, infelizmente,
pensam em primeiro lugar em seus interesses profissionais e não pensam no fato
de os brasileiros não serem só atletas, mas também seres humanos. Apenas seres
humanos! Ao fazerem pressão sobre os jogadores, eles afetam as suas vidas e a
vida de suas famílias. Afinal de contas, não existe só o talento, mas também os
critérios morais pelos quais se avaliam as pessoas. Os treinadores fazem
frequentemente críticas dirigidas aos jogadores brasileiros. Dizem que é
difícil manter mais do que dois na mesma equipe. Não é nada fácil trabalhar com
eles. Eles são tão talentosos, quanto confiantes em seus instintos para tomar
decisões. E acabam tomando muitas vezes decisões sem pensar. Por isso é que
nós, os que convivem com eles, temos a obrigação de ajudá-los a se comportarem
profissionalmente.
Está dizendo que todos os clubes têm problemas com os jogadores
brasileiros?
Toda a Europa se queixa. Até
mesmo o (Daniel) Alves, do Barcelona, disse certa vez que não conseguia fazer
como o resto dos brasileiros, sair do clube sempre com algum conflito. "Eu
respeito o meu clube, o contrato que assinei, respeito todo mundo em
volta", foram as palavras de Alves. Muitas coisas são simplesmente
inexplicáveis. Eles não têm, infelizmente, este tipo de educação: cumprir os
seus contratos e executar as funções que lhes são designadas. Mas há exceções.
Muito depende dos agentes. Do agente de Luiz Adriano, por exemplo, só posso
dizer coisas boas. Mas tem pessoas que não têm princípios de vida e que apenas
exploram os seus protegidos. Eu não estou falando apenas e especificamente dos
nossos jogadores brasileiros, mas no geral, dos jogadores brasileiros que atuam
na Europa. Tivemos na altura alguns problemas com Matuzalém e com Elano. Mas
nunca com o Fernandinho, o Jadson ou o Brandão. Sim, nós gostamos muito deles,
estamos junto deles, mas, do mesmo jeito que a gente cumpre os contratos
assinados com eles, eles devem cumprir as condições debaixo das quais assinaram
o seu nome.
Isso vale também para Bernard?
O mesmo é válido para o
Bernard: ele chegou um mês e meio atrasado depois da assinatura do contrato.
Mas nós o entendemos: ele é jovem. Mas agora está de novo atrasado, eu lhe dei
duas semanas para descansar depois da copa, do mesmo jeito que dei ao Srna. Ele
deveria ter vindo duas semanas depois, supostamente, no dia 27, 28 no máximo.
Hoje já é dia 30 e ele ainda não veio. O mesmo com o Nem. Dizem que o
Fluminense quer ficar com ele. Mas foi o Fluminense que nos apresentou o Nem
quando ele estava tendo problemas na virilha fazia 8 meses e não nos disseram
nada sobre isso. E agora querem pegar ele de volta como agente livre. No ano
passado nós pagamos um bom dinheiro pelo passe dele e o próprio Nem assinou um
bom contrato para si. E acabou não jogando nunca, esteve sempre lesionado. Para
falar a verdade, eu nem sei direito o seu nível de suas capacidades!
E agora eles querem ele de
volta, livre, e exercem pressão sobre o jogador para que ele fique no
Fluminense. Desse jeito apenas complicam a situação para ele: a relação com a
equipe técnica e os colegas de equipe. A impressão que dá é que nos tomam por
tolos. Nos venderam o jogador e agora criam pressão para que, passado um ano,
esse mesmo jogador regresse como agente livre! A mim não me surpreende o
comportamento de alguns jogadores, quando a própria liderança do seu clube se
comporta desse jeito! Enviam jogadores talentosos para a Europa sem se
preocuparem com a educação de seu relacionamento profissional. Nem com as
obrigações ditadas pelo contrato que eles próprios assinaram. No que diz
respeito a isso eu me sinto, evidentemente, muito insatisfeito. Ainda para
mais, porque amo demais os brasileiros e dou grande valor ao talento deles. No
entanto, eles estão cercados por pessoas que não têm perfil elevado. Por isso
eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para manter o nosso grupo. E vou
tentar chegar até eles: afinal, todos estes anos que eles passaram no Shakhtar
só lhes fizeram bem.
Como pretende convencê-los?
Nós esqueçamos como eles eram
quando chegaram aqui. Douglas e Teixeira tinham 18 e 19 anos. Os outros - o
Fernandinho e o Jadson... Onde estão eles agora, a que nível subiram. E
garantiram para eles e seus familiares uma vida futura. Eu quero que eles
entendam isso muito bem. Quero que eles não esqueçam que, além de direitos,
eles têm também muitas responsabilidades. Isso é mais para os jogadores mais
jovens, que são influenciáveis e que, sem conhecerem a situação, sem
compreenderem muitas coisas, agem por instinto. Como treinador, eu fui colocado
em uma situação difícil. Muitos dos que nos deixaram estavam praticamente
apresentados a outros clubes europeus! Eles são jogadores de alto nível. Têm
provavelmente um bom futuro pela frente. Mas aqueles que precisam destes jogadores
devem abordar o clube civilizadamente e resolver corretamente todas as
questões. A imprensa europeia escreve diariamente sobre um ou outro jogador.
Eles são jovens, leem isso... Por isso gostaria que eles se sentissem em um
ambiente mais calmo. Mas, pessoalmente, para mim vai ser muito difícil
encontrar uma linguagem comum com os agentes que se aproveitam da situação e
fazem pressão sobre os nossos jogadores.
Se algum jogador que tivesse saído ‘à revelia' de um outro clube
quisesse vir jogar para o senhor, você o aceitaria?
Nunca! Eu não teria nunca
confiança nesse jogador. Do mesmo jeito que os presidentes dos grandes clubes
não vão nunca prestar atenção a esse tipo de jogadores e aos agentes que tentam
levar os jogadores.
Mas, então, com o que contam eles? Que garantias lhes dão os treinadores
que os prometem encaixar?
Isso não é sequer tema de
discussão porque os jogadores têm contratos, têm um preço de transferência.
Ainda para mais, porque alguns deles apenas renovaram os contratos no ano passado,
com um aumento em seus salários e assim por diante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.