02 – Maria Aragão
Quantos seríamos hoje, se não diminuíssemos tanto? Quantos seríamos e aonde estaríamos se, na mesma proporção que nascem, não morressem tantas pessoas?
Nos primeiros sete meses deste ano de 2014, quantos nasceram? E, paralelamente, quantos foram para algum provável “andar superior”?
E, vejam, contamos apenas aqueles que nos cercam, que conhecemos, que nos deram o prazer da convivência. Quantos partem sem que os conheçamos? Mas, esse é outro assunto e trataremos disso posteriormente.
Nesta semana que passou, vejam, quantos caros e apreciados brasileiros perdemos: e, incrível, quase todos fazendo cultura. Cultura digna, edificante, aquela que nos ensina alguma coisa e nos apraz.
Ariano Suassuna morreu?
Não. Não morreu. Até porque, já era um imortal, com título da Academia Brasileira de Letras. João Ubaldo, Ubiratan Teixeira, José Chagas e outros, e outros e outros.
E, assim, hoje apresentamos aqui a nossa segunda estrela, aumentando e enriquecendo mais a nossa constelação:
Maria José Camargo Aragão, mais conhecida por Maria Aragão, nasceu em São Luís, a 10 de fevereiro de 1910 e faleceu na mesma São Luís, a 23 de junho de 1991. Foi médica e professora brasileira.
A médica Maria Aragão iniciou a carreira como pediatra, mas fez fama e se tornou conhecida como ginecologista. Formou-se em medicina pela Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. Sua história tem origem na extrema pobreza, mas ela logo parte em busca da superação da fome, do preconceito (por ser negra e mulher no início do século passado), da agressão e da perseguição do sonho de ajudar a humanidade. Dotada de um grande senso de liderança, enfrentou as oligarquias políticas, em pleno regime militar na década de 60, e sofreu as perseguições promovidas pela ditadura.
Através da medicina, Maria Aragão entregou-se às causas sociais, lutando por uma sociedade justa e igualitária. Foi uma eterna defensora das bandeiras libertárias e continua a ser referência para a luta popular do Maranhão. Maria Aragão fez história como líder do Partido Comunista do Brasil, no estado de origem. (Fonte: Wikipédia)
“Ainda lembro a visita que fizemos a Maria
Aragão, eu levado por meus pais, Simone e Roberto Macieira, para visitar minha
avó que estava presa no antigo quartel da PM, onde funciona hoje o Convento das
Mercês. Ainda criança, não compreendia com profundidade os horrores do cárcere,
nem aquela imagem de prisão associada à força que se traduzia em Maria Aragão,
médica maranhense e militante política por um mundo mais solidário e justo. E
menos ainda os motivos da prisão, quando o Brasil ainda sofria as atrocidades
do Regime Militar.
Não deve ter sido obra do acaso que, após
sucessivas prisões, algumas com torturas e outras agressões físicas e morais,
ela foi solta pela última vez em 8 de março de 1978. Das efemérides, o Dia
Internacional da Mulher é a data que simboliza com mais relevo a história das lutas
por direitos trabalhistas. Toda a trajetória de Maria José Camargo Aragão é a
síntese de uma vida de mulher trabalhadora, generosa e forte, cuja dedicação
apaixonada ao sacerdócio da Medicina a converteu em devota das doutrinas que
combatem os males sociais. Para obter a profissão de médica, cursando a antiga
Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, dava aulas particulares, chegando a
adoecer, pois só dormia três horas por dia.
Formada em Medicina, vai trabalhar no Rio
Grande do Sul, sofrendo o preconceito por ser mãe solteira de uma menina. Já na
militância comunista pelo interior do Estado, era perseguida e injuriada,
chamada de besta
fera pelos padres, que mandavam dobrar os sinos
no badalar do dia de finados, quando sabiam de sua presença nos municípios. Na
riqueza de episódios marcantes de sua existência, Maria Aragão foi a voz que
não se calou diante das arbitrariedades, foi exemplo de uma alegre
irreverência, obediente apenas aos seus sonhos e convicções de um mundo melhor.
A mulher que ajudou a criar e educar a minha
mãe deixou um legado que se estende nas carreiras profissionais dos herdeiros
de sua luta contra as injustiças. Não é demais reforçar a ideia de que os
direitos constitucionais conquistados pelas mulheres em suas lutas são direitos
fundamentais, integram o núcleo dos princípios pelos quais tantos defensores de
Direitos Humanos estão engajados.
Tenho orgulho de guiar meus passos, como
profissional e como cidadão, na defesa dos mesmos direitos humanos aos quais,
tão generosamente, Maria dedicou sua vida. Considero que meu engajamento na
defesa dos direitos dos trabalhadores, como advogado de sindicatos, dos
direitos humanos, da democracia e da dignidade humana, como valores universais,
minha atuação como conselheiro da OAB-MA e minha crítica cotidiana às
desigualdades perturbadoras, que brutalizam a sociedade brasileira, representam
a influência de Maria Aragão em minha visão de mundo. À qual se aliam meus
princípios, construídos num ambiente familiar ao mesmo tempo plural e ético.” (por
Mário Macieira).
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