Sala de Degustação da Vinícola Ouro Verde, na
Bahia.
Aiana Freitas
Do UOL, em São Paulo
Do UOL, em São Paulo
A Serra Gaúcha é referência quando se
fala em produção de vinho nacional. A milhares de quilômetros de distância
dali, no entanto, usando até tecnologia importada de Israel, outra região tem
se destacado no setor: o Vale do São Francisco, no sertão nordestino, cenário
marcado pelas altas temperaturas (27ºC em média, mas com picos de até 40°C) e
pela pouca chuva.
Segundo dados do Instituto Brasileiro
do Vinho (Ibravin), 48,6 milhões de litros de vinhos finos foram produzidos, em
2012, no Rio Grande do Sul, o único Estado que tem estatísticas oficiais sobre
o assunto. Estima-se que o Estado seja responsável por cerca de 90% da produção
nacional de vinhos finos, que seria, assim, de cerca de 54 milhões de litros.
Não existem estatísticas oficiais
sobre a produção do Nordeste. Mas o consultor do Instituto do Vinho do Vale do
São Francisco e professor de enologia do Instituto Federal do Sertão Pernambucano,
Francisco Macedo de Amorim, estima que a produção da região já chegue a 10
milhões de litros. Há cerca de dois anos, eram cerca de 8 milhões.
"A região produz uma bebida
adocicada, fresca e jovem que caiu no gosto do consumidor", diz Amorim.
Em vez de
uma, duas safras por ano - As empresas que atuam na região
conseguiram transformar o solo pobre do sertão e o clima semiárido em aliados e
conseguem obter suas safras anuais. Em outros polos produtores, no Brasil e no
exterior, o comum é apenas uma safra anual.
"As uvas brancas se adaptaram
muito bem à região. Além disso, o consumo de espumantes tem crescido muito no
Brasil, o que ajudou a dar destaque à região", diz Afrânio Moraes Filho,
diretor de operações da Miolo.
A Miolo mantém na cidade de Casa
Nova, na Bahia, a Vinícola Ouro Verde, que já é responsável por um terço de sua
produção (o restante está do Rio Grande do Sul).
Na Ouro Verde, a cada ano são
produzidos cerca de 2 milhões de litros de vinhos e espumantes em 200 hectares.
Até 2018, a estimativa é produzir 5 milhões de litros de vinhos e ampliar os
vinhedos para 400 hectares.
Sistemas
de irrigação suprem falta de chuva - "O
maior desafio foi adequar as condições locais à parreira, uma vez que não faz
frio, que é um aliado da produção no Sul. Isso fez com que tivéssemos de imitar
a natureza por meio da tecnologia de sistemas de irrigação", diz Moraes
Filho.
A maior parte da produção na empresa
na região está focada em espumantes, especialmente aqueles elaborados com uva
moscatel. Ela é mais adocicada e usada tanto na produção de espumantes como na
de vinho branco.
Vinhos tintos também são produzidos
lá, como o Testardi Syrah 2010, vencedor da categoria tinto nacional em um
concurso realizado na feira Expovinis, em São Paulo, em 2012.
Desde 2008, a fazenda faz parte do
roteiro turístico Vapor do Vinho, criado em parceria com a Empresa de Turismo
da Bahia (Bahiatursa). Os visitantes fazem uma viagem pelas águas do São
Francisco e são convidados a visitar a sede da Ouro Verde, que tem cantina, loja,
destilaria e sala de degustação.
Grupo
português Dão usa tecnologia de Israel - Há pouco mais de dez anos, a região atraiu também o grupo português Dão
Sul, que instalou em Lagoa Grande, Pernambuco, a Vinícola Santa Maria. Numa
área de 200 hectares, todos os pés de uva têm irrigação individualizada, feita
com uma tecnologia israelense.
"O fato de a região ser seca
ajuda a evitar a proliferação de pragas e o solo é propício para o cultivo. O
Sul tem um inverno definido e rigoroso, o que faz com que as uvas parem de se
desenvolver nessa época do ano. No Vale do São Francisco, a produção pode ser
feita no ano todo", diz André Goldberg, consultor comercial da vinícola.
Goldberg diz que a grande variação de
temperatura da região, que pode ser de 40ºC durante o dia e 20ºC durante a
noite, é benéfica à produção.
Um dos destaques da empresa é o
Paralelo 8, feito com uvas cabernet sauvignon e syrah, que foi eleito por um
concurso do Ibravin o terceiro melhor vinho brasileiro em 2011.
Uva
moscatel se adaptou ao clima semiárido - Para o
diretor da Associação Brasileira de Sommeliers em São Paulo (ABS-SP) Arthur de
Azevedo, a uva moscatel foi a que mais se adaptou ao clima semiárido do Vale do
São Francisco. "Os espumantes moscatéis da região são
extraordinários."
Ele diz que as duas safras
registradas por ano na região, apesar de serem interessantes comercialmente
para as empresas, fazem com que as parreiras não tenham tempo para acumular
nutrientes suficientes, o que é um problema para outros tipos de uva.
"Para outros tipos de vinho, a
melhor região produtora brasileira ainda é a Serra Gaúcha", afirma
Azevedo.
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