(Por Jaqueline Gomes de Jesus - No Instituto Maria Preta)
Assistindo à entrevista com a
candidata à reeleição, Dilma Rousseff, esta manhã no programa televisivo Bom
Dia Brasil, mobilizou-me profundamente sua prática, evidente nesta campanha à
presidência da República, de instilar o medo por meio de seu discurso,
direcionado unicamente à candidata Marina Silva.
Que os publicitários e ideólogos da
campanha petista se utilizem do medo, para se contraporem à esperança, é uma
triste ironia sobre a qual não me vale a pena demorar.
Pois bem, ouvi falas em quase nada
propositivas, limitadas a retrospecções inexatas e transmitindo informações
ameaçadoras, de cunho meramente afetivo, que apontam para os riscos "da
outra".
À estratégia política aí vigente cabe
uma análise psicossocial: a Psicologia dispõe de dados relevantes de pesquisas
acerca da tendência de se conferir exatidão a afirmações que nos soam
familiares, mesmo que sejam falsas.
A repetição é um fator fundamental
para a aprendizagem. Já se tornou clichê repetir a frase atribuída a Paul
Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, de que "uma mentira
contada mil vezes, torna-se uma verdade". Nem é preciso repetir tanto. Em
termos experimentais, é válido afirmar que uma opinião repetida 10 vezes por
alguém tem a capacidade de levar seu ouvinte a supor que ela é tão amplamente
aceita socialmente quanto se fosse expressa por dez pessoas diferentes.
Desde o início desta campanha
eleitoral temos testemunhado a utilização reiterada dessa estratégia, por
determinados agentes partidários e seus avatares nas redes sociais, a fim de
propagarem, por exemplo, que o candidato Aécio Neves seria usuário de drogas.
À última pessoa que me afirmou isso
eu indaguei: "Como você sabe disso? Você conhece ele"? Claro que a
resposta foi negativa, então questionei-a porque disse aquilo com tamanha
certeza (ou arrogância de verdade): "Porque muita gente na internet
diz"...
"Pois é, querido, quem garante
que isso é verdade, só porque muita gente diz? Não repita só porque lhe
passaram esse dado". Lamentável que adultos bem informados ainda se
permitam tais manipulações...
Quanto à candidata Marina, alvo mais
recente das fofocas e falácias, além do que comentei no início do artigo,
incomoda-me terrivelmente não apenas as "certezas" verbalizadas de
que ela "é" fundamentalista, mas principalmente a correlação duvidosa
entre suas crenças religiosas e seu posicionamento político (evangélica, logo,
preconceituosa/contra os direitos humanos).
Após tantos presidentes católicos
neste país, e alguns que se afirmaram ateus mas tiveram posicionamentos
favoráveis a determinadas entidades religiosas, para as quais "feliz é a
nação cujo deus é o Senhor", é preocupante que se faça esse tipo de
conclusão estereotipada quanto à religiosidade de um dirigente.
Neste ano eleitoral, o medo é a campanha com maior financiamento e com o
apoio das maiores coligações, e não as propostas. Que esteja funcionando, não
surpreende. Necessário é que, a bem da decisão informada dos eleitores, quando
às urnas, que os argumentos sejam bem fundamentados, em dados verificáveis, e
não em comentários e imagens reproduzidas na internet, e compartilhados com
comentários jocosos ou agressivos.
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