Oliveira Ramos em conversa com mãe e irmãos.
Jordina Gurgel Ramos, por incontáveis vezes reunia a
filharada na latada da casa e, enquanto cafuneava
um e outro, como um extinto “Contador de estórias” entretinha a todos ajudando
a noite passar. Era as estórias de trancoso,
fórmula não tão mágica que os antigos pais garantiam em casa a permanência dos
filhos, mantendo-os distantes da marginalidade e dos inúteis.
De dia, o trabalho na roça – sem que ninguém se
considerasse explorado ou escravizado – mesmo que durante as férias escolares.
De noite, espiando a fogueira que tangia para longe o breu da escuridão. Para
unir a família, um aluá de pão acompanhava uma batata doce assada no borralho
do braseiro. Ou uma gostosa espiga de milho assada, antes plantada e colhida
sem apoio de nenhum governo.
E foi numa dessas noites – mantenho vivo o arquivo na
memória – que Dona Jordina contou os avexados fatos ocorridos na recém-chegada
noite do dia 24 de junho de 1939. Era uma noite junina, animada como ainda
hoje. Pai viajando a trabalho, e apenas Raimunda Buretama e João em casa, além
da mulher entrando nos dias de parir.
Os chocalhos das cabras e dos bodes no chiqueiro quebravam
o silêncio. De repente, um grito desacostumado:
- Chega mamãe, estou sangrando! Me acuda!
Fora dali, chocalhos tocavam e bodes berravam se
misturando ao espocar dos foguetes juninos. Anunciavam, creio, a chegada de um
magricela que pesava pouco mais de 1,5 kg, suscitando que a avó materna jurasse
promessa a São Francisco de Canindé pela sobrevivência do recém-chegado.
Foi assim que, nascido no dia 24 de junho de 1939, dia
dos festejos de São João, o nosso “Chico” se tornou Francisco e por anos foi
conhecido como “Gurgel”. Exageradamente peralta, magricela por demais – a parte
mais larga das pernas era a patela – foi interno do Santo Antônio do Buraco, de
onde os administradores deram graças à Deus quando ele de lá conseguiu fugir.
A adolescência e as necessidades familiares lhe
impuseram mudanças. Cresceu, mudou, e, anos depois figuraria como Porta
Estandarte do Ginásio Municipal de Fortaleza, um dos mais conceituados da
capital nos anos 50 nos desfiles do dia 7 de setembro. Coloriu ainda mais a
inteligência nata com a leitura. Tornou-se autodidata, com noções de francês,
espanhol e inglês sem jamais ter frequentado escola particular para aprender esses
idiomas.
Ingressou no rádio como locutor. Rádio Dragão do Mar,
PRE-9, Rádio Assunção Cearense e Rádio Verdes Mares. Foi Narrador Esportivo e
depois Comentarista. Casou e teve filhos com Elerina. Mudou para o Rio de
Janeiro, onde trabalhou na TV e Rádio Tupi, de onde mudou para São Luís e
chegou em 1970 para dirigir a Rádio Educadora, levando-a pela única vez na
história a conquistar a preferência dos ouvintes desta terra. A partir daí,
quase todos já o conhecem.
Radialista, Jornalista e Advogado, ingressou no INSS,
onde, após turbulências, inerentes à profissão e ao cargo conseguiu
aposentadoria (pós-morte).
Hoje, 13 de setembro de 2014 faz 10 anos da morte de
Oliveira Ramos, cujos restos mortais estão num dos túmulos do Jardim da Paz, no
bairro Vinhais. Como homenagem, relembramos trechos da primeira crônica escrita
por ele para o Jornal O Estado do Maranhão, no dia 25 de fevereiro de 1988 e
parte da última, escrita no dia 9 de setembro de 2004:
“Para ler em família
25 de fevereiro de 1988
Era para ter começado aqui, entre os
monstros, na última quinta-feira (18), mas uma ressaca que insiste em
estigmatizar os cronistas que se prezam impediu-me de voltar de Fortaleza,
aonde fui curtir uma boa coalhada com farinha seca e de onde não pude voltar a
tempo.
Passados os porres carnavalescos – e
há gente que ainda está pagando por isso – volto-me para as atividades às quais
me dedico desde que existo: salvar o mundo, reservando, se possível, um bom
pedaço para os meus parentes e aderentes, que ninguém é de ferro; et, pour
cause, dar alguns conselhos corretos por vias oblíquas.
Lembro-me de que há muitos anos
namorava-se no portão, respeitava-se a virgindade das moças e obedecia-se uma
regra muito simples: comeu, casou. Tudo era feito em nome da família. Se o
silêncio da madrugada era varado pelo estampido de revólver, certamente algum
funcionário público arrependido tinha dado um tiro na cabeça. Era melhor o
suicídio do que envergonhar a família. A demissão, a bem do serviço público,
era o remédio que a sociedade aprovava para curar os casos de “alcance”. Esse
eufemismo era usado para dizer que alguém tinha roubado o patrimônio público.”
A
seguir, parte da última crônica:
Uma ponte entre os corações
9 de
setembro de 2004
O que as pessoas esperam de um cronista? Como leitor assíduo de alguns, nada exijo, e nenhuma sensação imediata experimento, a não ser a de encontrá-lo no mesmo lugar de sempre. Quando os editores resolvem diagramar o jornal de maneira diferente, muitas vezes mudam não somente o local do nosso cronista, como também trocam os tipos e a disposição gráfica da coluna. Até que nos acostumemos com a mudança, é como se estivéssemos lendo coisas escritas por um estranho. Aqui mesmo já ocorreram algumas mudanças significativas.
Outro dia, encontrei entre meus guardados, um exemplar de 15 anos. Tive a sensação muito desagradável de olhar bem de perto o esqueleto de uma pessoa amada. Quando amamos alguém, nem mesmo pensamos que esse objeto do nosso amor possua um osso com o inaceitável nome de patela. A mulher amada, de um modo geral, só tem boca, peitos, umbigo, alguma coisa mais abaixo, pernas grossas e pés maravilhosos. Depois, quando o amor desgasta-se, descobrimos que, às vezes, nem cérebro a criatura tem. A crônica que escrevera naquele espaço com cheiro de mofo era de um tamanho exagerado, tinha mais parágrafos do que recomenda o bom senso editorial. O assunto - este sim - era atualizado, como se hoje tivesse sido escrito.
Vejamos o tal caso da ponte que, em vez de nos ligar ao continente, isola-nos do resto do mundo. José Chagas tratou do assunto com a competência de sempre, mas o que ele escreveu leva-me a pensar mais profundamente nas rachas e culpas. A ponte em questão tem um passado sem atropelos, um presente cheio de fendas, mas não tem futuro previsível. Ao lado da ponte velha, existe o esquecido esqueleto de uma ponte nova. Para informação dos leitores, esse negócio de ponte sempre foi a passagem para problemas aparentemente sem solução.”
Francisco de Oliveira Ramos deixou um legado imaterial para os filhos: a inteligência genética e o gosto pela leitura. Teve com Elerina dois filhos do sexo masculino e, também com ela conseguiu a proeza de, neste atual mundo iletrado e desperdiçado pela juventude, a proeza de encaminhá-los para duas das mais conceituadas instituições de ensino do Brasil: ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), Tagil; e IME (Instituto Militar de Engenharia), Samir.
Como se isso por si só não fosse suficiente, teve também quatro filhas: Tami, Professora e funcionária antiga da Famem; Telma, falecida; Sabrina, Odontóloga; e Ticiana, também com formação em nível superior e funcionária concursada do INSS.
O imortal – Era hábito familiar (veja o início deste texto, quando foi dito que, na latada da casa do interior, a mãe reunia os filhos....) reunir para conversar e, principalmente, relembrar as agruras da vida.
Sempre a família – mãe e irmãos – procurou se reunir. E era sempre nessas reuniões que Oliveira Ramos dava ciência à mãe, Jordina, e aos irmãos presentes, os problemas enfrentados e as soluções encontradas. Sempre soubemos de tudo da vida dele, que era a nossa também. Sabemos das causas da sua morte. Sabemos de tudo. Ele nos contava. Entregamos tudo nas mãos de Deus.
Sabemos, inclusive que ele tinha uma desesperança por nunca ter sido sequer lembrando oficialmente para a imortalidade pela Academia Maranhense de Letras.
Mas, sabemos, também, que ele se imortalizou através de Acácio, seu ex-jardineiro e fauno de Uruburetama. Antes que ele se fosse, nos domingos de reuniões tocadas a galinha caipira em cabidela, rabada com agrião, mocotó com bofe e muitas gaitadas em alto e bom som, falávamos em Acácio e juramos de pés juntos que sua identidade jamais seria revelada.
Hoje, dez anos após o passamento do “ex-patrão”, o “ex-jardineiro” Acácio voltou a morar em Uruburetama e resolveu virar pescador. Entre uma tarrafeada e outra pesca umas tilápias e umas curumatás enquanto tenta descobrir a pólvora e a roda.
Para que mais, se ele sempre soube de tudo?
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